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Coqui: o achocolatado do tempo das nossas avós ainda existe e é produzido na Damaia

Entrou no mercado em 1969 e de lá para cá continua a manter a mesma receita com cacau, bem ao gosto português. Sabe a nostalgia

O arroz-doce tépido a saber a limão. Os pastéis de bacalhau estaladiços com arroz de tomate, a jardineira de vitela com cenoura e ervilhas, a canja de galinha perfumada  com uma folha de hortelã do rio. Por mais voltas que demos à nossa imaginação, por mais crescidos ou jovens que sejamos, a cozinha é portadora de cheiros, sabores e afetos, habitualmente associados às mães, mas, sobretudo, às avós. Há uma nostalgia que paira no ar e que noz lamber os lábios, para recolher os restos de leite com chocolate. Sim, porque quem nunca ficou com uns bigodes que atire a primeira pedra.

Chama-se Disfala e é natural que, assim, com a designação jurídica mas sem a comercial, fiquemos na mesma. Mas é a única empresa portuguesa que produz e comercializa chocolate em pó, garante o proprietário, de 39 anos.

“É uma marca muto na memória dos portugueses. Estamos no mercado desde 1969 e é um sabor que ainda está muito presente na mesa dos portugueses. É um sabor muito reconhecido, que nunca teve qualquer alteração desde 1969”, conta à New in Amadora João Paiva, um dos netos do fundador e que é hoje proprietário da marca.

Por exemplo, “aquelas preocupações dos tempos modernos de reduzir o açúcar, connosco não funciona”. A receita do Coqui mantém-se a mesma, nunca houve qualquer alteração, porque qualquer mudança que se faça não é bem recebida pelos nossos clientes”, acrescenta.

O achocolatado “verdadeiramente português”

 João Paiva não esconde o orgulho na marca de achocolatado verdadeiramente portuguesa. “Há uma coisa muito engraçada que os nossos queridos clientes gostam muito. A nossa receita não tem químicos adicionados para que o cacau seja facilmente diluído.

O proprietário tem noção que a “pequena” Disfala, que tem sede e fábrica na Amadora, freguesia de Águas Livres. “Reconheço que há uma onda saudosista. Perante marcas que têm um potencial comercial muito superior como a Nesquick, Ovomaltine. Mas a nossa marca tem apenas essa marca saudosista, porque o produto é bom. Se não fosse, a marca não tinha resistido tanto tempo, perante os gigantes.

Porquê a Amadora e a Damaia? João Paiva não sabe decifrar o enigma. “Que eu saiba não há qualquer razão objetiva. Em 1969 tudo isto era Oeiras, Lisboa, não havia trânsito, era tudo o mesmo espaço. Quem fundou a empresa foi o meu avô e mais dois sócios. Nenhum deles tinha qualquer ligação efetiva à Amadora, mas encontraram este espaço para a implementação da fábrica na Damaia de Cima, perto da avenida João V e aproveitaram.

A marca, apesar do potencial comercial da concorrência mais forte internacional, continua a valer a pena: “é óbvio que sim, embora tenhamos de ter em atenção a alteração dos hábitos deste tipo de produtos. Este era um produto muito para os pequenos-amoços e lanches, mas com a introdução dos cereais, os hábitos mudaram”, exemplifica à NiA.

As vendas já não são o que eram, mas ainda é negócio, revela João, que aponta para a Portugalidade, como fator convertível diferenciador. “É revelante no contexto da faturação global”, sublinha à nossa reportagem.

O neto do fundador, João aponta ainda o dedo ao aumento contínuo dos custos de produção do cacau. “Isso faz com que as nossas margens de lucro sejam hoje mais esmagadas do que eram. Gosto de dizer que isto ainda é negócio, mas o barco tem de ser levado com sentido de equilíbrio e responsabilidade.

“Se aumentamos os preços, ouvimos logo dos nossos parceiros e clientes, mas muitas vezes, sem terem noção do que amentaram os custos de produção, e, por isso, não há como fugir à atualização dos preços”.

“A maior parte dos clientes não sabe, nem quer saber, que esta é uma marca portuguesa, que tem de concorrer com grandes empresas, com muito maior capacidade de investimento financeiro”, afirma, sublinhando que a Coqui é a única marca portuguesa que produz originalmente em Portugal. “Depois, é óbvio que não é a mesma coisa beber um achocolatado Coqui do que o de uma marca branca do distribuidor, com todo o respeito”.

Filho único, irmão único e sem filhos, João, de 39 anos, tem o sabor do achocolatado  bem metido nas narinas. “Bebo Coqui desde sempre. A marca faz parte de mim, não tenho irmãos, não tenho filhos, portanto Coqui é todo meu [risos]. O cheiro a chocolate já não o sinto, porque é cheiro a casa, a família, estou habituado desde sempre. É o cheiro da dispensa dos meus avós. Os afetos são sempre inconfundíveis na cozinha, devolvem-nos a nostalgia.

Alargar o portfólio de produtos Coqui “não esta fora de questão”. “De vez em quando, pensamos nisso, mas são planos que têm de ser muito bem pensados”, diz, sem abrir o jogo.

Carregue na galeria e limpe “os bigodes do leite com chocolate”.

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