Se o leitor ou leitora está hoje na casa dos 45/50 anos, recorda-se, com toda a certeza, dos seus bolos de aniversário: base de pão de ló coberto com doce de ovo, o seu nome em massapão e umas velas. Ou, numa versão melhorada, chantilly e morangos, com uns toques de chocolate. Esqueça tudo o que sempre viu e provou. Agora, cada bolo de aniversário é o reflexo do mundo complexo em que vivemos. “Há com cada coisa mais maluca, mas eu adoro, confesso”.
Quem o diz é Eliene Freitas, 48 anos, chegou a Portugal há 22, vinha com formação em técnica de preparação de medicamentos. Acabou por encontrar trabalho numa clínica estética. Qual a ligação? Nenhuma, “mas tive de me fazer à vida”. Até que há cinco meses, decidiu apostar no seu sonho.
“Sempre gostei de cozinhar, sempre fui muito criativa e, portanto, achei que era a altura certa”, conta à New in Amadora, impulsionada pelo marido, com quem está junta há seis anos, “embora a história seja cumprida”, avisa.
“Abandonada pelo pai dos filhos”
“Conheci o meu marido cá. Mas a história é mais complicada. Na altura, eu era casada com um brasileiro e vim para cá casada com ele. Até então, eu não podia engravidar e comecei a fazer um tratamento cá em Portugal. Engravidei de gémeos, perdi os bebés, engravidei novamente e, quando eles tinham seis meses, o pai disse-me que não estava preparado para ser pai e me deixou com eles sozinhos”, recorda.
Eliene hoje já superou o trauma, mas imagine-se como foi ficar com duas crianças gémeas a seu cargo, fazendo ruir todo o projeto de vida que tinha estruturado para aquela família. “Não quis mais saber de homens, nem de encontrar mais ninguém. Fiquei muito magoada com os homens, por conta do abandono do pai biológico dos meus filhos. E eu ia fazendo a minha vida e nem pensavam em homens. Até aparecer o meu marido”, diz com um sorriso.
O atual companheiro de Eliene, hoje marido, é português e “fez aquilo que o pai biológico das crianças não fez”. “Ele assumiu os filhos como se fossem seus. A aceitação foi ótima. Tanto do meu marido como dos meus filhos. Porque pai não é quem faz, é quem ama. Foi muito bonito e eu sinto-me abençoada por isso”, diz à NiA.

O marido não tem nada a ver com doçaria. “Trabalha no aeroporto, não leva o menor jeito para os bolos. Só se for para comer”, graceja. Aliás, a confeiteira brinca com a situação: “quando estou na cozinha, não quero lá ninguém. Aquele é o meu espaço, gosto de estar concentrada e sozinha. Mas e ele e os filhos, quando percebem que o bolo vai entrar para o forno, invadem a cozinha para lamber a massa crua que restou no recipiente.”
Eliene, que agora não vive na Amadora (mas é vizinha), está umbilicalmente ligada à cidade. “Vivi muitos anos na Venteira, passo a vida na Amadora, devido à madrinha dos meus filhos e tenho muitos clientes por aqui. Aliás, posso dizer-lhe que nestes primeiros meses, 75 por cento dos meus clientes são desta zona”, diz à NiA.
A empresária está satisfeita com o passo que deu. “Tem sido tudo muito rápido e temos crescido muito, felizmente. Temos muita procura, embora haja também uma grande concorrência”, admite. No entanto, Eliene diz que “há espaço para todos”, até porque “todos os brasileiros que vêm para Portugal e pensam montar um negócio, pensam sempre em bolos, brigadeiros e salgadinhos”.
Com Eliene aconteceu o mesmo, mas a sua especialidade são os bolos de aniversário, “cada um mais estranho, complexo e divertido do que o outro”. A brasileira também faz brigadeiros e salgadinhos, mas não aposta muito nesse segmento. “Só trabalho essa área para festas, e encomendas grandes: 100 brigadeiros, 200 salgados, decoração de festas”.
“Os miúdos estão cada vez mais exigentes com os bolos”
É nos bolos de aniversário que Eliene coloca toda a criatividade em prática. “Os miúdos estão cada vez mais exigentes, influenciados pela televisão, jogos de computador, plos telemóveis. O meu público preferencial são os mais novos. Querem os desenhos animados, complicam sempre um pouco e nós temos de ir atrás da imaginação deles. Os pais mandam muitas vezes uma foto ou um boneco de um desenho animado, que o me permite ter uma ideia do que eles querem.”
Entre os pedidos mais estranhos recebidos, a confeiteira elege um em especial: “Fiz um bolo em que tinha de colocar dinheiro lá dentro. Foi um presente dos pais para a filha que ia fazer 15 anos. Pediu-me um bolo de dois andares e para colocar o dinheiro lá dentro para ela poder ir puxando e as notas saindo. E assim foi. Quase 500 euros. Tive de fazer um rolinho com esse dinheiro, e coloquei o dinheiro num potinho para não estar em contacto com a massa. E ela puxava esse potinho, e as notas saíam”, revela à New in Amadora.


A cliente adorou, claro. “Até eu adorava. Nunca ninguém me fez algo assim”. Para encomendas excêntricas ou mais normais, Eliene aceita encomendas via Instagram ou WhatsApp (+351 912 508 513), “mas sempre com 15 dias de antecedência. Nem é pela dificuldade do trabalho, é mesmo porque, muitas vezes, para o dia que o cliente quer, eu já tenho mais cinco ou seis encomendas. E assim fica mais fácil para me organizar”, conclui.
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