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Este restaurante na Amadora só serve comida alentejana (e está sempre cheio)

Filipa e Rui apostam no cozido de grão, migas ou caldo de cação. Um cliente de 80 anos chorou ao provar um prato da sua infância.

Enquanto a maioria dos restaurantes procura conquistar clientes através de novidades receitas arrojadas, o Lugar ao Sul prefere remar contra a maré e quer manter-se fiel à tradição. Há 11 anos que Filipa e Rui Quintiliano, ambos com 54 anos, levam o sabor do Alentejo a quem vive na Amadora. “O nosso conceito é tipicamente alentejano. E não vacilamos”, garante Rui.

Abertos de segunda a quinta-feira, ao almoço, e à sexta-feira e sábado também ao jantar, servem uma ementa fixa com pratos tradicionais. O cozido de grão, as migas e o caldo de cação são os favoritos de quem frequenta o restaurante. Além destes, costumam ainda incluir mais um ou dois pratos por dia.

“A base da nossa cozinha é o pão. As migas são o aproveitamento do pão duro, que é demolhado e temperado com azeite, alho, coentros e, por vezes, espargos ou cogumelos”, explica o proprietário.

Além de servirem o verdadeiro pão alentejano, têm uma carta de sobremesas, quatro da região sul e três conventuais portuguesas. Destacam a sericaia, doce servido com ameixa e calda de açúcar, e a encharcada. “É um doce típico de Mourão, em que os ovos são cozidos numa calda de açúcar. É semelhante a fios de ovos, mas mais espesso e com canela”. Há ainda toucinho do céu e sopa dourada.

Apesar da qualidade dos pratos, o sucesso do restaurante não se deve apenas ao sabor. “Isto não é só sobre comida, é sobre relações. O grande segredo de terem a casa cheia são eles, que proporcionam uma experiência de bem receber, de nos sentirmos em casa”, revela Nuno Santos, cliente fiel do Lugar ao Sul.

A decisão de abrandar

Antes de abrirem o restaurante, o casal vivia uma rotina exigente. Rui, que se mudou para a Amadora em 1997, conduzia autocarros, enquanto Filipa trabalhava na área da publicidade.

“Foram 19 anos a trabalhar nesse ramo, mas chegou uma altura em que tive mesmo de parar porque estava muito cansado. Eram muitas horas de trabalho e acabava por ser apenas pelo ordenado. Deixou de fazer sentido”, recorda Rui.

Foi num jantar de família que Filipa sugeriu ao marido abrir uma tasquinha. Ele, que se dizia preguiçoso e não tinha grande experiência na cozinha, decidiu arriscar. Afinal, era bom garfo e tinha o desejo de defender a gastronomia alentejana.

Escolheu o espaço, na Avenida Eduardo Jorge, remodelou-o ao seu gosto, convidou um amigo cozinheiro para ajudar nas preparações e, em 2015, abriu o Lugar ao Sul. “No início foi muito difícil e houve dias em que saí daqui a chorar. Só pensava ‘onde é que eu me fui meter?’ e estava completamente em negação”, confessa.

Aos poucos, o espaço começou a atrair mais pessoas que, por algum motivo, insistiam em voltar e em recomendar aos amigos. Com o tempo, a casa encheu e Filipa decidiu também deixar a publicidade para assumir a cozinha.

Um convite à calma

Hoje, a equipa é composta por quatro pessoas e não está nos planos qualquer mudança. O espaço é pequeno, com cerca de seis mesas e capacidade para 20 pessoas. Todos os dias está cheio, seja de quem quer relembrar o sabor de casa, ou de quem deseja experimentar uma cozinha diferente.

“O foco é a qualidade. Não fazemos como em alguns sítios, por exemplo, com o pão. Há padarias que compram farinha de qualidade inferior para não aumentarem os preços. A nossa preocupação não é o preço, é a qualidade. Temos de ter produtos premium. A nossa clientela procura o justo com qualidade”, esclarece Rui.

Além disso, quem almoça ou janta no Lugar ao Sul vem com tempo. “A nossa comida demora a fazer. Quem vem comer aqui não pode estar com pressa”, sublinha Filipa.

Defensores do prazer de saborear, querem que o espaço seja um lugar de partilha e tranquilidade. Um restaurante onde as pessoas interajam entre si enquanto desfrutam de comida tradicional genuína.

“Uma vez estava aqui um senhor com 80 anos sentado à mesa a chorar. Perguntei-lhe se estava tudo bem. Confessou que estava a saborear algo que comia quando era pequeno e emocionou-se ao recordar a infância. Isso não tem preço.”

Propósito que não muda 

Segundo o casal, o propósito é que as pessoas usufruam do tempo à mesa, revivam bons momentos e saiam satisfeitas. Mais do que isso, a missão é manter viva a gastronomia do Alentejo.

“Cada vez mais a comida tradicional está a desaparecer. Aqui não procuramos a novidade. Qualquer pessoa pode fazer isso, nós não. Aqui optamos pela tradição. Quanto mais antigo, melhor.”

E o conceito parece estar a resultar. Deixaram de publicar nas redes sociais porque já não conseguiam receber todos os clientes e quem não reserva mesa com antecedência dificilmente consegue lugar.

Não costumam anunciar eventos como o Brunch Alentejano ou as noites de vinho. Na verdade, o passa-palavra, como antigamente, é o que garante a sala cheia. Quando questionados sobre a possibilidade de abrir um novo espaço ou aumentar o atual, mantêm o mesmo discurso: preservar a tradição e o ambiente pequeno e acolhedor — quase como um regresso a casa.

“Num mundo em que somos cada vez mais fast food e fast person, aqui é um convite ao slow food, a abrandar. Venho aqui para relaxar. As pessoas ficam mais um bocadinho à mesa. Isto é muito português”, conclui Nuno.

Carregue na galeria para conhecer o restaurante Lugar ao Sul.

FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    Av. Eduardo Jorge 8b
    2700-307 Amadora
  • HORÁRIO
  • De segunda a quinta-feira das 12 às 15 horas
  • Sexta-feira e sábado das 12 às 15 horas e das 19h30 às 22 horas
PREÇO MÉDIO
?
TIPO DE COMIDA
alentejana

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