A paixão pelo vinho e a vontade em qualificar o comércio e serviços na Amadora, de onde é natural, levou o músico a abrir o wine bar Companhia dos Lobos. Inaugurado no sábado, 5 de julho, no mercado municipal da Mina de Água, o negócio está a surpreender pela positiva.
“A primeira semana está a correr muito bem. Já temos clientes que vieram cá uma segunda vez, portanto repetiram. O sentimento geral é que as pessoas ficam surpreendidas por encontrarem um espaço destes aqui. A frase que mais ouvimos é ‘a Amadora não tinha nada disto’. E eu fico orgulhoso, claro”, confessa à NiA João Pedro Escoval, 52 anos. “Acho que são 52, já nem sei bem”, diz a rir, um dos sete elementos fundadores dos Moonspell. A banda foi criada em 1989 na Brandoa, ainda com o nome Morbid God, e que mudariam em 1992 para a atual designação.
A música nunca deixou de estar presente na vida de João Pedro, baixista, mesmo quando deixou a formação liderada por Fernando Ribeiro. “Estive desde 1989 até 1996. Gravei os três primeiros álbuns e fizemos tournées nacionais e internacionais. Depois entrei na Faculdade, fui para a Universidade Nova estudar Filosofia, que não tem nada a ver com isto. Após da saída dos Moonspell, continuei a colaborar noutros projetos de música, quer a solo, quer em bandas”, recorda.

Em setembro, aliás, vai sair um single de um projeto novo em que está envolvido, revela, sem adiantar outros detalhes. Apesar de não viver profissionalmente da música, ela “é muito mais do que um hobby”. “Não sei viver sem música”. Nem sem atletismo, já agora. “Faço provas todos os fins de semana, ainda ontem fui correr o Trail do Monte da Lua, em Sintra. Participo todos os anos na São Silvestre da Amadora, fui federado pelo ABCD da Brandoa, que é um grande clube, desde os meus 15 anos”, enumera.
Mas é o vinho e o petisco que o levou, em conjunto com a mulher, Ana Tavares, a abrir este novo wine bar no mercado da Mina. “O que queremos é que as pessoas descubram o prazer do vinho, que possam beber a copo aqui connosco e terem alguma coisa para picar e partilhar, ou levarem uma garrafa para casa”, afirma.
Para acompanhar as referências escolhidas a dedo, há carnes frias, queijos e enchidos. “Temos ainda cavala marinada e atum fumado de Vila Real de Santo António. Apostamos em produtos de qualidade, todos selecionados por mim”, conta João Pedro, que começou a negociar vinho ainda antes da pandemia.
“Apesar de ser da Amadora, tenho raízes alentejanas, família e casa em Moura, e comecei a ir lá buscar vinho e a vender a amigos e conhecidos. E daí surgiu a ideia de, mais tarde, ou mais cedo, abrir um espaço que reunisse esse negócio”, explica à NiA.
“Acredito no potencial deste mercado”
A abertura da loja, que só agora se concretizou, tem uma história com cerca de três anos. “Quando vi este espaço, há cerca de três anos, o mercado ainda não tinha sofrido as obras de renovação. Depois, com as obras de remodelação, fiquei ainda mais interessado. Mas, entre o nosso interesse, que manifestámos à junta de freguesia da Mina, o início do processo da hasta pública e a apresentação dos resultados, demorou mais ou menos três anos — e eu não sabia se ia para a frente ou não, mas não desisti”.
E fez bem, porque, garante, acredita muito “no potencial deste mercado, junto ao Parque Central, perto da estação da CP da Amadora, da câmara, da junta de freguesia”. “Além disso, continuo a acreditar que as pessoas da Amadora mereciam uma oferta diferenciada do que havia por cá”.
Apesar das raízes familiares no Alentejo, o músico tem vinho de todo o país nas prateleiras do seu espaço. “Neste momento, temos vinhos desde o Minho até ao Algarve. Tenho uma inclinação especial por vinhos do Alentejo, mas felizmente vivemos num país onde se produz em vinho já em quase todas as zonas”, assegura.
João Pedro está contente com o resultado. “A Companhia dos Lobos não é um conceito sofisticado. Se olharmos à volta, é um espaço conceptual: é um misto entre uma tasca fina e um wine bar. Tem esse traço rústico. A nossa intenção foi abrir um espaço simples, sem presunção, mas com bom gosto. Não queríamos nada pretensioso”.
O empresário reforça que está fortemente empenhado em “apostar na qualificação da Amadora”. “Eu sei que há sempre um grande preconceito sobre a Amadora, sobretudo de gente que não mora cá, que não conhece, que acha que aqui só há vândalos e índios e não é verdade. A Amadora é uma grande cidade, tem acessos extraordinários, tem uma rede de serviços incrível. Mas às vezes o preconceito começa mesmo nas pessoas que moram cá”.
O fundador dos Moonspell sublinha que “tem de haver aqui um esforço de toda a gente: dos políticos, dos próprios habitantes e de quem trabalha cá. É claro que à volta da Amadora, Cascais e Oeiras têm mar e turismo, Sintra é património mundial, mas a Amadora tem de encontrar o seu core, tem de fazer da multiculturalidade a sua força”.
Wine bar de preços justos
Uma das preocupações do casal foi encontrar um equilíbrio entre a qualidade e os preços praticados. Os vinhos a copo variam entre 3,50€ e 4,50€, seja superior ou premium. Uma tábua mista para duas pessoas custa 14€, um chouriço assado, 8€. “São preços perfeitamente normais. Tentámos fazer uma tabela de preços justos, que se diferenciasse. Sou frequentador de tascas, mas os preços que praticamos que não são de tasca, porque o vinho a copo que servimos é de ótima qualidade. Não podemos querer ganhar tudo de uma vez. Temos de conquistar o mercado aos poucos”.
João Pedro Escoval conta que foi bem recebido pelos restantes comerciantes do mercado: “Eles sabem que uma casa destas também qualifica o mercado, que é uma pérola, e que também traz clientela nova”.
Para já, esta Companhia dos Lobos dá os primeiros passos. “Estamos no início, vamos ver como corre, este espaço é ideal para testar, experimentar, colocar em prática muitos conceitos, mas eu gostava muito de expandir isto para o mercado da Brandoa — que é o mercado da terra onde cresci — e até ter esta presença nos mercados da Amadora. Era uma forma de revitalizar os mercados e dar mais juventude ao comércio tradicional”, conclui.
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