Açaí, rodízios de churrasco e pão de queijo já são fáceis de encontrar em Portugal. Mas entrar numa padaria de manhã, pedir um tradicional pão francês acabado de fazer, prensado na chapa com manteiga e acompanhá-lo com um café coado – uma experiência muito brasileira – não é possível na maioria dos espaços. Foi precisamente dessa rotina que Elis Romã sentiu falta quando regressou de umas férias no Brasil e que acabou por dar origem à Ah Padaria Brasileira.
A primeira loja abriu em Massamá, em dezembro, e o sucesso apanhou os proprietários de surpresa. Nove meses depois, a marca chegou à Amadora, onde inaugurou uma segunda unidade a 9 de setembro. “Somos a primeira e única padaria cujos produtos são todos brasileiros”, afirma Elis Romã, de 39 anos, proprietária do espaço. A rapidez com que o projeto cresceu também a surpreendeu. “Quem trabalha com restauração sabe que isso é um feito muito grande”, afirma.
A ideia nasceu, literalmente, da vontade de comer o pão do Brasil, com a casca dourada e crocante e o miolo macio e branco. Elis passou dois meses de férias no Brasil com o marido, Leonardo, que é também o seu sócio. Durante esse período, as idas à padaria tornaram-se parte da rotina. “Quase todos os dias a gente comia na padaria. E quando voltei para Portugal senti muita falta. Eu brinco que ela nasceu da minha necessidade de comer pão francês aqui”, afirma.
Quando regressou, precisou de apenas duas semanas para desenhar o projeto. Pensou no nome, no logótipo, no conceito e no menu. Desde o início, decidiu que a carta seria totalmente brasileira. Nada de croissants, cookies ou tartes. “Pão francês, salgados quentes, bolo de milho, bolo de goiaba, café coado. Tudo que você come na casa de vó, sabe?”.
Leonardo gostou da ideia e juntou-se ao projeto. O primeiro espaço apareceu em dezembro, em Massamá, através de uma conhecida de Elis. “A Gisele adorou a ideia. Ela tinha uma loja de açaí e um salão de cabeleireiro lado a lado, mas queria fechar o açaí. Então acabamos por usar o espaço e transformamos na padaria”, conta.
Foram precisos apenas 17 dias para transformar a antiga loja e abrir as portas. A adesão foi muito maior do que esperavam. Segundo Elis, as filas chegavam à esquina e havia cada vez mais clientes à procura do pão de sal brasileiro. Em menos de três meses, perceberam que precisavam de mais espaço. “A Gisele procurou outro espaço para o salão de cabeleireiro e, assim, pudemos alargar a padaria”, conta.
Mesmo depois da expansão, a loja continuava pequena para o movimento diário. Foi então que o casal começou a procurar uma segunda morada. Inicialmente, a ideia era abrir no centro de Lisboa, mas o espaço da Amadora apareceu por acaso. “A ideia era ser no centro de Lisboa, mas a gente brinca que essa loja da Amadora nos escolheu”, recorda.
O casal tinha ido almoçar à cidade quando reparou num anúncio de “aluga-se”, escrito à mão e colocado na porta de um estabelecimento. Gostaram do espaço e da localização, numa rua movimentada, e decidiram avançar. Desde a abertura, Elis diz que a nova loja tem recebido muitos clientes e que alguns chegam à procura de sabores que não provavam há anos. “Tem gente que vem comer aqui e chora. Outro dia, uma senhora estava a chorar enquanto comia um bolo de milho. Ela disse que aquilo a levou para um lugar em que foi muito feliz”, conta.
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A loja da Amadora tem os mesmos produtos da primeira unidade. A Ah Padaria Brasileira tem fabrico próprio e, desde o início, Elis decidiu produzir aquilo que não conseguia encontrar nas padarias portuguesas. “Na época meu marido até brincou perguntando se eu era padeira. Disse ‘não era, mas a partir de agora eu sou’”, recorda, entre risos.
O grande protagonista é o pão francês prensado na chapa, que, segundo a proprietária, representa cerca de 70 por cento das vendas. A versão mais simples, apenas com manteiga, custa 1,75€. Com fiambre e mozzarella custa 2,25€. Há ainda o conhecido pão com mortadela, muito popular em São Paulo, por 2,95€, e uma versão com queijo minas por 3,25€.
Para acompanhar, a escolha é propositadamente mais curta do que numa pastelaria portuguesa. “Nada de chávena fria, quente, garoto, café com princípio ou sem princípio. Aqui, o nosso café tem princípios e é só café ou café com leite”, brinca. O café coado custa 1,20€ e a versão com leite, 1,90€.
Também pode pedir leite com chocolate (1,90€), preparado com Nescau ou Toddy, duas marcas muito populares no Brasil. Para os mais gulosos, há pão doce de coco, pão com leite em pó, bolo de milho, bolo de goiabada e bolo brigadeiro, “aquele de vó mesmo, bem molhadinho”. A montra inclui ainda bolos de pote, com sabores como Ninho, chocolate e cremosinho.
Quem quiser encontrar a montra ainda cheia deve chegar cedo. Às oito da manhã há pão fresco, salgados e doces, mas alguns produtos começam a desaparecer poucas horas depois. “Por volta das 10 ou 11 horas já começa a esgotar. Tentamos ir repondo, mas às vezes a procura é tão grande que não conseguimos”, afirma.
O crescimento rápido da padaria surpreendeu Elis, mas a restauração já fazia parte da sua vida. Antes deste projeto, o casal chegou a ter quatro lojas de doces, com o nome Ateliê da Gula, além de uma picanharia. “Começamos em 2020 e fomos crescendo, mas depois eu engravidei e precisei de desacelerar. Vendemos três, ficamos com duas, mas em 2024 decidimos abrir mão de todas”, recorda. Depois dessa fase, Elis começou a dar consultoria a quem queria abrir restaurantes em Portugal. “Ajudava tanto nos licenciamentos, quanto na elaboração de ementas”, explica.
Vive no País há quase 20 anos e, ao longo desse tempo, ganhou experiência com a documentação e as exigências necessárias para abrir um negócio. “Isso veio muito da minha mãe. Ela tinha muitos afilhados e sempre fazia ovos de páscoa e de aniversário pra todo mundo”, recorda. Em 2019, Elis começou a fazer bombons e a vendê-los em salões de cabeleireiro e no local onde trabalhava. Mais tarde, abriu a primeira loja física.
A mudança para Portugal também não estava nos planos. Elis tinha acabado de começar o segundo ano de Direito quando uma amiga que vivia no País lhe falou de uma oportunidade de trabalho. “Tinha acabado de começar o segundo ano de Direito, mas essa minha amiga vivia em Portugal disse para eu vir, disse que tinha uma vaga de emprego em vendas e que poderia ser minha”, recorda.
Aos 20 anos, mudou-se para Lisboa “com 1000 euros e uma mala de roupa”. Quase duas décadas depois, quer usar a nova padaria para recriar um pouco da experiência que encontrava no Brasil. “Quero que as pessoas se sintam como se estivessem lá. Até por isso fiz todo o cardápio em português do Brasil, só com algumas observações para os portugueses”, afirma.
Elis já recebeu várias propostas para transformar a Ah Padaria Brasileira num franchising, embora ainda não tenha decidido se vai avançar. Para já, prefere concentrar-se nas duas lojas e na reação de quem entra à procura dos sabores de que sentia saudades. “É muito gratificante quando você vê a pessoa emocionar-se com o que come”, afirma.
Carregue na galeria para conhecer a Ah Padaria Brasileira.








