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Páscoa mais cara: as embalagens de chocolate diminuíram mas os preços aumentaram. Porquê?

São más notícias para quem costuma oferecer caixas de bombons ou ovos gigantes na Páscoa, que este ano se celebra a 5 de abril.

O chocolate está a converter-se, lentamente, num pequeno luxo. A subida dos preços não é apenas uma perceção do consumidor, mas o resultado de uma crise sem precedentes no mercado das matérias-primas, em particular, do cacau. 

As más colheitas no Gana e na Costa do Marfim, os dois maiores produtores mundiais, provocaram uma quebra acentuada na produção. Dado que estes dois países asseguram mais de metade do cacau mundial, a fraca produção agrícola tem uma repercussão imediata e profunda no mercado global. 

Nos últimos anos, os agricultores têm enfrentado um cenário adverso e de difícil controlo: fenómenos meteorológicos extremos, doenças que fustigam os cacaueiros (como a podridão parda e o vírus do broto inchado) e um aumento generalizado dos custos de produção.

O resultado é uma redução drástica da oferta, precisamente num período em que a procura não pára de crescer: na colheita de 2023/2024 o défice rondou as 478 mil toneladas, o maior desequilíbrio registado nas últimas seis décadas.

Com este diferencial, o preço do cacau, que durante anos estabilizou entre os dois mil e os três mil euros por tonelada, atingiu um máximo histórico próximo dos 13 mil euros. Segundo dados do Eurostat, em maio de 2025, o preço do chocolate na Europa estava, em média, 21,1 por cento mais caro do que no período homólogo.

Perante este cenário, a indústria tenta encontrar soluções para mitigar os custos de produção sem afugentar o consumidor com aumentos demasiado bruscos. Uma das estratégias adotadas tem sido a redução do peso das tabletes ou do tamanho das embalagens, mantendo (ou até subindo) o preço final, fenómeno conhecido como reduflação (shrinkflation).

A outra alteração passa pela reformulação das receitas, como aumentar a proporção de açúcar ou a substituição de matérias-primas nobres por alternativas mais baratas. Uma das trocas mais comuns passa por usar gorduras vegetais (óleo de palma ou karité) em vez de manteiga de cacau. Contudo, embora seja uma prática comum, é fortemente regulada.

Na União Europeia, para que um produto seja legalmente designado “chocolate”, a adição de gorduras vegetais alternativas não pode exceder os 5 por cento. Caso ultrapassem este limite, as marcas perdem o direito de usar essa denominação nos rótulos, substituída por expressões como “sucedâneo” ou ”composto de chocolate”.

Porém, a manteiga de cacau é o ingrediente responsável pela textura e pelo brilho característico das tabletes. A sua substituição altera o ponto de fusão do chocolate (deixa de ”derreter na boca” da mesma forma ) e a aumenta a probabilidade de surgir um fenómeno conhecido como fat bloom (aparecimento de uma camada esbranquiçada ou acinzentada à superfície), que embora não seja prejudicial à saúde, é visualmente pouco apetecível.

Na prática, isto significa que, atualmente, o consumidor paga mais por menos quantidade e, frequentemente, por um produto com pior qualidade. Se esta Páscoa, celebrada a 5 de abril, notar uma diferença na embalagem ou no sabor daquelas amêndoas cobertas com chocolate que compra todos os anos, não é apenas uma impressão.

Leia também este artigo sobre o novo Museu de Arte em Chocolate, inaugurado no Festival Internacional de Chocolate de Óbidos, a decorrer até 22 de março. Carregue na galeria para ver algumas das peças em exposição.

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