Entre tantas ruas e avenidas da Amadora, Ana Cristina escolheu a Rua 9 de Abril para começar uma nova fase da sua vida. Foi ali, a poucas portas de distância, que a amadorense viveu até aos 18 anos, naquela que considera “a melhor fase da sua vida”. Mais de duas décadas depois, e após recuperar de um burnout, decidiu regressar ao lugar onde foi feliz.
Em maio, abriu uma papelaria na mesma rua onde cresceu e deu-lhe o nome Matos, numa homenagem ao avô, uma das figuras mais importantes da sua vida. “Fui criada pelos meus avós maternos desde que nasci. O meu avô tinha uma empresa, Matos Bebidas Nacionais e Estrangeiras, por isso quis manter o mesmo nome e colocar o logótipo verde porque era do Sporting”, afirma.
Aos 42 anos, é a sua estreia no mundo dos negócios. Na verdade, passou 20 anos a trabalhar como gerente de loja na rede de supermercados Minipreço. “Nunca acordei uma única vez sem vontade de trabalhar. Amava o meu trabalho”, recorda.
No entanto, com a carga horária que chegava às 14 horas por dia, Ana acabou por ultrapassar os limites do corpo. “Estava a receber um camião na loja e comecei a ver estrelinhas. Queria falar e não conseguia. Fui para o Hospital São Francisco Xavier e fui diagnosticada com burnout em último grau”, lembra.
No início, a amadorense teve muita dificuldade em aceitar o diagnóstico — e, mais ainda, em aceitar que precisaria de deixar de trabalhar. “Foi muito revoltada. Acabei por ser teimosa e continuei a trabalhar, até que a médica disse que tinha mesmo de ficar de baixa”, afirma.
Transformar a dor numa homenagem especial
Passou três anos e meio de baixa, a tomar medicação e a ter acompanhamento psicológico. Nesse período, também ficou a cuidar do avô até ao dia da sua despedida. “Era uma pessoa que amava muito e eu também era das pessoas mais importantes da vida dele. Quando foi para o hospital e ficou lá dois meses, estive sempre por perto”, recorda.
A morte do avô deixou saudades, mas também uma vontade de homenagear o seu legado. Por isso, após recuperar do burnout, decidiu abrir uma loja que carregasse um pouco da história do avô. “No ano passado, o psiquiatra e a psicóloga disseram-me que tinha de arranjar um plano B, porque se voltasse ao meu trabalho, ia ao buraco novamente. Então tive a ideia de abrir o meu negócio”, lembra.
Queria algo que fosse leve, mas que mantivesse o contacto com o público, uma área em que sempre se destacou. “Decidi pela papelaria porque foi o primeiro trabalho que tive, há 25 anos”, afirma. Passou três meses a planear o negócio e, com o apoio do Amadora Inova, inaugurou o espaço em maio deste ano. “Vim para a rua onde fui feliz. Afinal, aqui foi a fase da minha adolescência em que só tenho boas memórias junto dos meus avós”.
Construir uma segunda família
Mais de 20 anos passaram desde que Ana saiu da Rua 9 de Abril. No entanto, parece que nada mudou. “As pessoas são afáveis e simpáticas. Acabamos todos por criar uma outra família”, afirma.
Desde que abriu a loja, recebe muitos idosos que vão fazer pagamentos de faturas, pessoas que querem jogar nas raspadinhas e outras que levantam encomendas. “À tarde, temos tempo para conversar. O senhor João, da barbearia do lado, vem aqui e, às vezes, vem um amigo dele tocar acordeão aqui na loja. É sempre muito animado”, conta.
Além dos serviços tradicionais de uma papelaria, como fotocópias, digitalizações, impressão de documentos e plastificação, Ana vende doces brasileiros a partir de 50 cêntimos, que esgotam rapidamente. “Tenho o doce de banana, normal e com canela, paçoca normal e sem açúcar, além dos amendoins japoneses do Rio”, afirma.
Para o regresso às aulas, a papelaria tem “tudo o que se pode usar na escola”, desde canetas apagáveis a cadernos e guaches. Tem ainda uma parceria com a Cool Acessórios e vende artigos para telemóveis e computadores, como ratos, cabos, smartwatches, colunas de som e carregadores. “Agora também vendo bijuteria, a partir de 5,50€, mas de aço 316, que não fica feia”, garante.
Desde a abertura, a amadorense tem recebido muitos comentários positivos. Além da sua simpatia, os clientes destacam a necessidade que sentiam de ter um espaço como este naquela rua. “As pessoas dizem que já fazia falta porque não há nenhuma papelaria aqui.”
Para Ana, é muito gratificante conseguir regressar ao sítio que a fez feliz e, ao mesmo tempo, homenagear um dos homens mais importantes da sua vida. “Posso dizer que estou a trabalhar 12 horas por dia, mas, desde que abri o meu negócio, nunca mais tive crises de ansiedade ou de pânico. Se soubesse que isso faria parte da minha cura, já teria agido antes”, admite.
Agora, Ana Cristina está a trabalhar para incluir ainda mais serviços e produtos e responder às necessidades dos clientes. Quer instalar uma máquina da Santa Casa para jogos e ter mais produtos estrangeiros, de forma a agradar ao público diversificado que frequenta a loja.
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