Quando ainda era uma criança, Janete Nhanengue sentava-se num banquinho à porta de casa, em Moçambique, e fazia tranças às vizinhas em troca de algumas notas para comprar um lanche e um refresco. Pelo caminho, sonhou ser médica, mas acabou por se formar em Psicologia e trabalhou em bancos e multinacionais. Mas foi essa paixão que começou aos 10 anos que acabou por acompanhá-la até Portugal. A 5 de setembro, a moçambicana de 33 anos abriu o Xonguile Jany, o seu próprio salão de cabelo e unhas, na Amadora.
“Xonguile é um nome tradicional de Moçambique que significa bonita. Além do próprio significado da palavra, escolhi o nome também como uma forma de reforçar as minhas raízes africanas”, conta a proprietária.
Janete aprendeu a fazer tranças sozinha. Desde pequena, arranjava o cabelo das vizinhas e procurava qualquer oportunidade para praticar. “Era muito vaidosa e dizia sempre à minha mãe: ‘Compra-me uma irmãzinha para eu poder fazer tranças’”, recorda, entre risadas.
Mas os cabelos não eram a única coisa que a fascinava. Janete também gostava de tratar de feridas e não se impressionava com sangue. “Queria lavar a ferida de toda a gente, estava sempre pronta para ajudar. Na época das mangas, havia bichos que entravam nos pés e eu ficava toda ansiosa para ajudar as crianças a tirá-los”, recorda.
Foi daí que nasceu a vontade de ser médica-cirurgiã. Só que não conseguiu entrar numa universidade pública e a família não tinha condições para pagar uma instituição privada. “Por isso, decidi ganhar dinheiro como cabeleireira, que era algo que eu já sabia e gostava de fazer.”
Aos 18 anos, começou a receber clientes na varanda da casa da mãe, onde fazia tranças, alisamentos e unhas. Ao mesmo tempo, conseguiu emprego como rececionista e passou a dividir-se entre os dois trabalhos. “Depois tive a minha filha, casei. Tudo muito cedo. Foi uma fase em que o salão ficou um pouco em segundo plano”, conta. A paixão pelos cabelos nunca desapareceu. Em 2016, uma tia cedeu-lhe um espaço em casa para montar um salão e Janete retomou o projeto. Chegou a ter três funcionárias, embora nunca se tenha dedicado ao negócio a tempo inteiro.
“Em Moçambique, trabalhar com estética não é algo rentável ao ponto de conseguir viver só disso. Por isso, sempre trabalhei para bancos e multinacionais, conciliando os fins de semana e os momentos livres para atender as minhas clientes”, explica.
A psicologia entrou na sua vida mais tarde e por incentivo do ex-marido, que a convenceu a deixar para trás o sonho da Medicina e experimentar outro curso. Na altura, já tinham três filhos, Janete dividia-se entre dois trabalhos e ele acreditava que “a Medicina ocuparia toda a minha vida”. Decidiu experimentar, embora admita que a principal motivação foram os filhos. “Sempre perguntam ‘o que é que a tua mãe é?’. E eu queria que eles pudessem responder que eu sou doutora”, admite.

Concluiu o curso em 2022 e fez um ano de estágio num hospital psiquiátrico em Moçambique, mas acabou por não seguir a profissão. “Sofri uma traição no casamento, tive stresses emocionais, entrei em depressão e divorciei-me”, conta. Foi nessa altura que sentiu necessidade de recomeçar, “longe da zona de conforto”.
A 5 de dezembro de 2024, Janete apanhou um avião para Portugal. “Tinha duas malas. Uma de roupa e outra com as minhas ferramentas de trabalho”, lembra. Menos de 24 horas depois de chegar, já tinha atendido a primeira cliente, recomendada por uma amiga.
Criou os preçários e começou a divulgar nas redes sociais os serviços de unhas e cabelo. Ainda assim, acreditava que seria difícil conseguir trabalhar logo na área da estética e que teria de começar pelas limpezas ou pela restauração, “como todo o imigrante africano”.
Chegou a enviar cerca de 100 currículos por dia e fez várias entrevistas, mas as propostas de salário à comissão deixavam-na desanimada. No final de dezembro, conseguiu finalmente emprego num salão de cabeleireiro em Lisboa. “Fiquei quatro meses no Colombo, depois passaram-me para a loja VIP deles, que era no Alto dos Moinhos”, conta.
O problema surgiu quando, no final do contrato de um ano, a empresa decidiu não o renovar. “Foi um balde de água fria. Estava a gostar de Portugal e precisava de estar a trabalhar para tratar da documentação”, lembra.
Conseguiu emprego na área das telecomunicações, mas rapidamente percebeu que não se identificava com o trabalho. Foi o namorado português quem a incentivou a sair e a voltar a apostar naquilo de que realmente gostava. “Achei que não poderia abrir um salão aqui por não ser portuguesa, mas ele explicou que não era assim”, recorda.
Janete decidiu começar devagar e alugou uma cadeira num salão de brasileiras na Margem Sul. A experiência durou pouco. “Mas, em duas semanas, tinha a certeza de que queria ter o meu salão.” As clientes começaram a aparecer rapidamente, algumas à procura “da africana”. Começou então procurar um espaço próprio e encontrou um salão disponível em Alfornelos. Gostou tanto da oportunidade que fechou o negócio antes mesmo de o visitar. Depois, precisou apenas de quatro dias para deixar tudo como queria. “Não precisa de ser grande, mas confortável”, reforça.
O Xonguile Jany tem uma mesa para unhas e duas cadeiras para cabelo e, desde a abertura, já recebeu mulheres de vários pontos do País. “Já recebi clientes de Beja, Évora, Coimbra. Algumas querem mesmo fazer com uma africana e outras vêm por gostarem do trabalho e por indicação”, conta. Entre os serviços disponíveis estão o spa dos pés e gelinho (30€), o alongamento de unhas (30€), as tranças (75€), os apliques (40€) e a maquilhagem (50€).
A especialidade da casa, porém, são as extensões com queratina, com preço sob consulta. A técnica permite alongar o cabelo através de pequenas mechas fixadas junto à raiz com queratina. “Principalmente as clientes que vêm de longe é pelas extensões de queratina. Sou conhecida em Portugal por isso”, reforça.
No futuro, quer continuar a apostar no salão, mas também pensa regressar aos estudos para fazer um mestrado em Psicologia. “A área da estética é o que eu quero levar à frente, mas também não quero perder por completo a minha licenciatura”, conclui.
Carregue na galeria para conhecer o salão Xonguile Jany.








