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Paraíso dos colecionadores na Amadora tem 80 mil artigos e mais de 2 mil clientes

Sandra e Vítor criaram uma segunda família num centro comercial escondido. "Sempre fomos uns geeks", reconhece a gerente.

Há muitas razões que podem atrair duas pessoas e acender o rastilho. Uma paixão à primeira vista, um encontro que termina numa noite tórrida, uma conversa sobre os grandes clássicos da música clássica, ou a partilha de um vinho tinto e de uma bela tábua de queijos. Porém, se perguntássemos a 20 portugueses, 20 razões para juntar um casal, provavelmente nenhum pensaria no motivo que levou Sandra, 49 anos, e Vítor, 52, a aproximarem-se: são ambos colecionadores.

Afinal, aquela velha frase de novela — “queres ir lá a casa ver a minha coleção de cromos?” — é mesmo real. “Nós sempre fomos uns geeks”, conta, divertida, à New in Amadora, Sandra Rodrigues, a gerente do terceiro filho do casal ­— e aquele que saiu mais caro. Mas já lá vamos.

É na Quinta Grande, freguesia de Alfragide, concelho da Amadora, que está situada a Colecionar, o verdadeiro paraíso dos colecionadores, que vêm de todo o País em busca de objetos que sabem que ali encontram. E, se por acaso não encontram, Sandra e Vítor fazem questão de correr o mundo à procura deles.

Em torno da loja, que antes de ser física já tinha existência virtual, criou-se uma comunidade de mais de 2 mil clientes. “Somos uma família. Criou-se um espírito muito bonito, porque todos partilhamos o gosto pelo colecionismo”, conta. “Temos clientes que ficam em lista de espera durante seis meses por um dado objeto”, conta Sandra, não evitando a gargalhada perante o espanto que obtém como resposta.

Como se tornaram colecionadores

A empresária, que há pouco menos de dez anos trocou a segurança de uma carreira sólida de 18 anos nos Recursos Humanos do ISCTE por um gigantesco salto no escuro, lembra-se bem da primeira coleção que fez na vida. E recorda-se por duas razões: em primeiro lugar, porque tem boa memória. Em segundo, porque, decorridos tantos anos, continua a alimentar essa coleção.

Ao fim de 18 anos no ISCTE, Sandra foi em busca de um sonho.

“Sempre adorei viajar. E, lembro-me que, ainda muito pequenina, sempre que ia a algum lado com os meus pais, trazia postais dos sítios por onde passávamos. Ou quando familiares e amigos iam de viagem, também me traziam postais”, recorda à NiA. E garante que estão “religiosamente guardados”. “E continuo a acrescentar alguns. Recentemente, eu e o meu marido fomos em trabalho a Valência e lá tivemos de trazer postais”, conta, divertida.

Vítor era um rapaz do seu tempo. Também começou cedo a colecionar. “No caso dele, eram cromos de futebol e cartas”, conta a mulher. Típico dos rapazes. Provavelmente, teve paciência e engenho para acabar a coleção do Naranjito, coisa de que nem todos se podem gabar.

“Toda a gente achou que éramos loucos. Nós também”

Quando Sandra decidiu dizer adeus ao ISCTE — mesmo contra a vontade da sua chefe, que ainda lhe disse, sem qualquer efeito, ‘nem penses’ —, o casal conversou em casa e achou que “loucura, sim, mas era melhor manter os pés assentes na terra”. Vítor manteve o seu emprego. “É engenheiro informático, cyber security de um banco”, revela.

“Alguém tinha de ficar a trabalhar, porque se isto desse para o torto, alguém tinha de sustentar a casa e os dois filhos. Um de nós tinha de ficar seguro. Somos loucos, mas não tanto”, ri-se.

Sandra e Vítor já tinham a loja online e faziam eventos muito concorridos de troca de cromos no Alegro de Alfragide. Pouco depois surgiu a ideia de terem um corner da Colecionar no piso 0, em frente à entrada da Box do Auchan. “O sítio era excelente e aquilo foi um grande boost para nós, porque era um sítio de grande visibilidade, que nos fez ganhar muitos clientes.”

Tantos que começaram a ser pressionados para arranjar uma loja física a sério. Afinal, o corner, que mantiverem até 2018, tinha apenas 9 metros quadrados e as solicitações de produtos e novos artigos era cada vez maior. “Eu própria, sendo mega fã de Harry Potter, fiz tudo para que o mundo mágico pudesse estar na nossa loja. Mas não podia ser ali”, conta a gerente.

A loja crescia de dia para dia, até porque passaram a ter “figuras Funko, ligadas a tudo o que é japonês, manga, Dragon Ball”. “E passámos a ter também a Marvel, a DC, a Star Wars, os Funko Pops abrangem estas marcas todas. Era muita bonecada”, recorda, acrescentando que a Playmobile sempre tinha estado com eles, “porque é muito colecionável, tanto por miúdos como por adultos. E, logo a seguir, avançámos com a Lego, tinha de ser”.

O terceiro filho

O casal começou a procurar um espaço para arrendar, mas assustou-se com os valores pedidos. “E pensámos: para arrendar por estes preços, se calhar é melhor tentar comprar uma loja, porque ao menos é uma coisa nossa”. Acabaram por encontrar um espaço que estava em insolvência num banco e acharam que era uma boa ideia. “Avançámos e comprámos”. Problema: era atrás do sol-posto, num “centro comercial completamente morto”, o Centro Comercial dos Moinhos, na Quinta Grande, em Alfragide.

Quando contámos aos amigos que tínhamos comprado aqui uma loja, fomos gozados e todos nos disseram que éramos loucos”, conta Sandra, sem hesitar, revelando um humor típico de quem sabe que, afinal, tudo deu certo. E sentiam-se loucos?, perguntamos. “Sim, um bocadinho. Aliás, muito loucos. Quando fomos para o Alegro, implicou um investimento pessoal de quase 18 mil euros no corner. Repare, nós temos dois filhos e estávamos a apostar tudo em algo que não é um bem de primeira necessidade. E se corresse mal?”, questiona.

Não correu. Os dois filhos do casal, que têm hoje 21 e 16 anos — e que sempre viveram a “febre do colecionismo” dos pais— “habituaram-se a este novo irmão”. “Na prática a loja era o nosso terceiro filho, exigia a nossa total atenção, sobretudo a minha, porque o Vítor continuava no seu trabalho”, explica Sandra.

Três anos após a abertura da loja, veio o sobressalto da Covid-19, que obrigou a fechar o espaço físico, embora o online se mantivesse a funcionar. “Fomos muito acarinhados pelos nossos clientes. As pessoas foram inexcedíveis, continuaram a comprar e a mandarem-nos mensagens nas redes sociais, a darem-nos força.”

Quando o País desconfinou, passaram a ir a eventos de norte a sul, tiveram influencers a falar da Colecionar e começaram a organizar os próprios encontros. “Quando fazemos atividades aqui na loja, chegamos a ter 100 pessoas, o que é uma loucura”. Olha-se para as paredes e percebe-se porquê. Tudo cheio, num caos organizado, onde cada peça, cada artigo parece estar arrumado no sítio certo. Ninguém, exceto Sandra, sabe qual é o sítio certo. É isso que interessa.

“Atualmente, temos cerca de 80 mil produtos e referências à venda. Só para ter uma ideia, neste momento, em stock, tenho cerca de 80 mil euros em valor cativo. Ou seja, 80 mil euros investidos à espera que alguém compre. E sei que vão comprar, porque quem pertence a esta família do colecionismo, não desiste facilmente.”

Sandra tem mais um sonho: juntar os artigos de coleção à comida. “Adorava ter aqui na loja uma área onde as pessoas pudessem sentar-se, trocar cromos, conversar sobre as suas coleções, beber um copo, comer qualquer coisa. Mas não tenho dimensão, nem investidores para isso”, lamenta. Talvez no futuro, quem sabe.

Carregue na galeria para ver mais imagens da Colecionar.

FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    Centro Comercial dos Moinhos, Loja 11, R/C, avenida da quinta grande, 22
    2610-161 Amadora
  • HORÁRIO
  • De segunda-feira a sábado, das 10h30 às 13h e das 14h às 19h
  • Encerrado ao domingo

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