Cresceu entre ruas, escolas e campos improvisados da Amadora, mas foi na música que encontrou a forma mais clara de contar a sua história. Loiro, nome artístico de André Martins, nasceu em Lisboa, mas foi na Amadora, mais concretamente na zona da Venteira, que construiu a sua identidade, a sua visão do mundo e a sua voz enquanto rapper.
É dali que parte quase tudo o que escreve: as memórias de infância, dos tempos passados com os avós, porque os pais viviam em Rio de Mouro, as inquietações da juventude e as perguntas que hoje coloca através da música.
A infância foi passada a jogar à bola com os amigos no Parque de Angola, junto à Escola da Venteira, onde estudou durante oito anos. Foi nesse contexto que, aos 12 quando, escreveu a sua primeira música, graças a uma situação vivida na escola que o deixou revoltado e o levou a transformar emoções em palavras.
Desde cedo que esteve exposto à música americana de Jay-Z e 50 Cent, mas hoje em dia é mais fã de artistas como Kendrick Lamar, André 3000 dos Outkast. Aos 19 anos gravou a primeira música num estúdio em Queluz, tema que nunca chegou a ser lançado. Chegou a pensar criar a sua própria editora, até que acabou por conhecer o produtor Tayob J, com quem desenvolveu a maior parte do seu primeiro EP e com quem ainda hoje trabalha.
Além de música, adora viajar, ver séries e documentários sobre política, e sempre que pode não dispensa ver um bom jogo de futebol, mantendo-se fiel ao Estrela de Amadora.
Em entrevista à NiA, o rapper recorda como foi crescer na Amadora, o início da carreira enquanto rapper, a influência da cidade na sua música e na mensagem, bem como os preparativos para o novo álbum.
Qual a melhor memória que guarda da Amadora?
Jogar à bola com os meus amigos na rua, perto da Escola da Venteira, onde estudei, e no parque de Angola, que fica mesmo ao lado.
Ainda em jovem, o que é que o inspirou a querer ser rapper?
Na altura que estava a terminar o 12.º ano, comecei a questionar-me sobre o que queria fazer da vida. Percebi que não queria apenas um trabalho comum, queria fazer algo de que realmente gostasse. Sempre gostei muito de música e comecei por experimentar, perceber como tudo funcionava. Já escrevia letras na escola e em casa, mas nunca pensei que fosse levar isso a sério. Quando decidi gravar sons, percebi que era mesmo aquilo que queria. Com o tempo, comecei também a interessar-me pela parte técnica, já que também sou engenheiro de som, e não apenas pela escrita ou pela interpretação, mas também pela componente melódica, pelos instrumentais e pelo som em geral. Foi tudo um processo gradual.
O seu primeiro EP, “A Capicua”, foi lançado em 2022 e aborda temas como o racismo e a opressão. Em que medida é que a cidade da Amadora se reflete nas suas canções?
Acho que se reflete de forma global, tanto nas coisas positivas, como nas negativas. Toda minha vida toda foi passada na Amadora e, por isso, cerca de 90 por cento das experiências que carrego vêm de lá, são reflexo do que vivi e também acaba por influenciar a forma como vejo o mundo. Quanto faço uma música, toda essa vivência acaba por ficar na impressa nela. Nota-se também na forma como me posiciono enquanto rapper, não apenas no que digo, mas na forma como o digo. Tenho muitas influências da Amadora e da Linha de Sintra. É impossível canalizar para a música algo que não tivesse a ver com a Amadora ou tentasse eliminar esse lado, porque é uma grande parte de mim, faz parte de quem eu sou.
Já conheceu outras pessoas da Amadora com uma história e um percurso semelhante ao seu?
Sim, muitas. Conheço pessoas desde antes de começar a fazer música, que continuam ligadas a ela até hoje, como o Uncle C, uma pessoa muito presente na cultura hip-hop. Já fez música e atualmente trabalha mais nas áreas do vídeo e da fotografia. Também tenho grandes referências como o Esquadrão Central, o Sir Scratch, todos da Amadora. Dentro do concelho da Amadora, há ainda pessoas da Cova de Amora e da Reboleira, como o Ferry, um rapper com muito talento e que, na minha opinião, ainda não tem a visibilidade que merece.
O que gostava que fosse mudado na Amadora e que ainda não aconteceu?
Estou a preparar um projeto com um conteúdo cultural muito ligado à Amadora, que representa muitas das experiências que vivi. Aquilo que considero mais urgente mudar, não só na Amadora, mas também na forma como se fala da Amadora, é a mentalidade e o preconceito, tanto o que vem de fora, como o que existe internamente. Não é apenas a forma como os outros nos veem, mas é também a forma como nós nos vemos. Acredito que mudar mentalidade é meio caminho andado para as coisas melhorem. Claro que existem burocracias e medidas concretas que podem ser tomadas. Um exemplo são as câmaras de vigilância, que considero uma medida positiva. No entanto, os cartazes colocados para promover a videovigilância mostravam apenas pessoas brancas com a mensagem “Olhamos por si”, estava subentendido que estão a proteger um estereótipo. Acho que devia ser mais inclusivo, porque a Amadora tem uma diversidade muito grande de pessoas e não deviam colocar apenas uma raça ou uma etnia.
Qual o papel da tua música e como pode para contribuir para isso?
O meu papel passa muito por ajudar a expandir os horizontes. Quanto era mais novo, sentia frequentemente que, ao dizer de onde vinha, surgiam piadas ou comentários desnecessários. mesmo quando isso não acontecia, havia uma sensação de preconceito, por vezes real, outras vezes criada por mim, às vezes o preconceito era meu. A minha música surge nesse contexto de autoanálise: olhar para nós próprios enquanto comunidade. A minha música surgiu nesse contexto de autoanálise: olhar para nós mesmos e como poderemos melhorar a nossa comunidade.
Quais as principais diferenças, que o público pode esperar no teu novo álbum em relação ao teu primeiro EP?
Sinto-me mais maduro. Musicalmente, o álbum é mais coeso e diverso. Acho que comecei a descobrir a minha sonoridade. Liricamente, obviamente, está muito mais evoluído. Na altura era muito jovem, comecei no início. Estou realmente a descobrir como é que quero posicionar-me enquanto rapper e artista. O álbum chama-se, “É preciso nascer de novo?”, vai sair este ano e fala sobre novos temas, bem como outros temas que já falei com situações mais específicas. Vou falar sobre a imigração em Portugal, tanto para quem chega, como de quem e obrigado a sair à procura de uma vida melhor. Vou falar de problemas com a bebida, do álcool, sobre violência doméstica e questões que têm a ver com sexo desprotegido. E as pessoas vão sentir a influência da Amadora nesse álbum. Ainda não está fechado quantas músicas vai ter, mas serão mais de 10.
Quais as perspetivas para o futuro, tanto na música, como fora dela?
Gostava de conseguir ter um papel fora da música, com impacto na comunidade da Amadora. Quando digo influente, refiro-me a um papel que conseguisse ajudar os jovens e criar oportunidades para fazer algo diferente. Na música, gostava de apresentar o projeto para o País, porque sinto que é mais o que nos une do que aquilo que nos separa. O meu projeto é sobre isso: o que nos une, que não é só algo que acontece na Amadora. Porque, na verdade, há coisas que acontecem em todo o lado. A Amadora tem uma fama pior do que outros sítios, como Lisboa, mas há realidades que acontecem em Lisboa que não acontecem na Amadora. Tal como há coisas positivas que acontecem nos outros sítios, que também acontecem na Amadora, e as coisas negativas na Amadora também acontecem noutros locais. Quero mostrar a nossa realidade, mas também que somos todos iguais. Temos todos experiências parecidas, mesmo que sejam em diferentes contextos. O sentimento que provoca acaba por ser o mesmo. Gostava que o projeto fosse um tema de debate, de forma a conseguir arranjarmos soluções que ajudem a melhorar a comunidade.
Qual é o sítio na Amadora onde mais gosta de estar? Algum sítio que as pessoas devam conhecer?
Gosto muito do Babilónia, porque representa bem a diversidade que existe na cidade. Um lugar onde gosto de escrever é na Serra das Brancas. Às vezes conduzo até ao parque, estaciono e fico a escrever e a apreciar a vista. A escola onde andei também é um espaço icónico, onde passei oito anos, conheci muita gente, fiz muitos amigos até hoje, então acaba por ser um local muito importante. Quanto a restaurantes, recomendo o Colóquio. Mesmo ao lado fica o Uncle C, uma loja de roupa que vale a pena conhecer, principalmente para quem gosta de hip-hop e streetwear. Há ainda o Menu King, perto do centro de emprego, um restaurante brasileiro que antes era conhecido como o 2 e 80, porque na altura o menu era dois euros e oitenta. Hoje já não tem esse preço, mas a comida continua a ser muito boa.
E já há datas para próximos concertos?
Dei um concerto em outubro, no Teatro Maria Matos, no âmbito do concerto do Visco, em que fui convidado. Neste momento, estou totalmente ficado na conceção do álbum. Quero fechá-lo bem e, depois, começar a marcar datas pelo País. Haverá, naturalmente, um concerto de apresentação, que deverá ser o primeiro passo.
Carregue na galeria para conhecer o percurso de Loiro.

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