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Bolinha de Música: “A Amadora precisava de um espaço destes”

Rute Cancela criou um projeto que junta pais e filhos e transforma aulas em momentos de partilha musical.

Aos 32 anos, Rute Cancela não se recorda de uma vida desligada da música. Natural de Vila Nova de Gaia, o primeiro contacto surgiu ainda em casa, por influência do pai, músico na Banda Filarmónica de Crestuma-Lever. Acabou por entrar no Conservatório Regional de Gaia, onde começou a estudar fagote, um instrumento de sopro que viria a marcar o seu percurso académico. Mais tarde, concluiu a licenciatura em Música na Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo (ESMAE).

Quando sentiu  que era altura de explorar novos caminhos, mudou-se para Lisboa para frequentar o Mestrado em Ensino de Música. Não chegou a terminar o curso, por necessidade de encontrar trabalho. Foi nessa fase que começou a dar aulas de fagote e de música aos mais novos, experiência que viria a revelar aquilo que hoje identifica como a sua verdadeira vocação: o ensino musical.

 Em 2019, criou o projeto Bolinha de Música, inspirado na canção “Bolinha de Sabão”. Durante a pandemia da COVID-19, Rute criou um canal de Youtube onde passou a compor músicas para histórias infantis. Foi através desse trabalho que surgiu o contacto com a editora Poets and Dragons para musicar alguns livros, fazendo uma parceria que dura até hoje.

Desta colaboração resultaram já seis livros publicados. Em 2024, quando achou que era altura de abrir o seu próprio espaço, criou a Fábrica da Bolinha na Amadora, que funciona com cinco turmas regulares, todas as semanas.

À New in Amadora, Rute Cancela falou sobre a fundação do seu projeto, o novo livro “Tudo Pelo Ar”, as aulas com os pais e miúdos e os planos para o futuro.

O que é o Bolinha de Música?
É um projeto de música para bebés e miúdos entre os seis meses e os seis anos. Começou por ir a escolas e creches, e continuamos a ser professores de música para os mais novos. Além disso, a Bolinha de Música cria livros infantis e faz músicas para outros autores de livros infantis, trabalhando com editoras, nomeadamente a Poets and Dragons e a Bertrand Kids. Também vamos lançar um livro com uma nova editora, a Livros do Horizonte. Além disso, somos contactados por bibliotecas de norte a sul do País. Já temos uma equipa no Norte, com 22 professoras. Também somos contactados para festas de aniversário, devido à proximidade com o canal no YouTube e o espaço Fábrica da Bolinha. Os mais novos pedem uma festa com a Bolinha de Música, então os pais contactam-nos e um dos professores vai à festa.

Qual a história mais engraçado que já viveu com a Bolinha de Música?
Quando trabalhamos com miúdos, acabamos por ter momentos bastante engraçados. Por exemplo, os mais novos estão habituados a ver-me no YouTube e, quando surjo ao vivo, perguntam-me se sou real (risos). Sei que parece estranho, mas estão naquela faixa etária que não percebem bem o que é um desenho animado e o que é uma pessoa real.

Em 2019 criaram a Bolinha de Música e, em 2024, apostaram no espaço Fábrica da Bolinha. Como surgiu a ideia de criar este projeto?
Como muitas pessoas procuravam as nossas atividades, decidimos ter um espaço onde nos podiam encontrar. Pensámos logo na Amadora porque, além de morar na Amadora, percebemos que não havia muitos espaços culturais de música. Além de uma escola de música e da Banda Filarmónica, não havia um espaço de música para bebés com este tipo de atividades.

Qual a melhor parte de ter a Fábrica da Bolinha na Amadora?
Durante o dia, os pais estão a trabalhar e, às 17 horas, vão buscar os filhos à escola e chegam aqui stressados com o trânsito e a chuva. Vêm fazer a aula com os miúdos porque é um compromisso que têm de passar mais tempo com eles. Mal entram, deixam para trás a correria do dia a dia, descalçam-se, sentam-se no tapete e cantam, dançam e riem, ainda que com alguma vergonha. Uma vez, uma mãe disse-me que isto era muito bom para ela. Trabalha num escritório, onde nem sempre é feliz, e quando vem aqui diverte-se com o filho, passa um momento e liberta-se. Dou aula aos mais novos, mas às vezes fico a pensar que os pais desfrutam tanto ou mais que os miúdos. Todas as semanas sinto isso, é o lado mais bonito do nosso espaço.

Como é a relação dos pais com o projeto Bolinha de Música?
Como levamos as histórias e as músicas às escolas, há uma ponte entre as educadoras e os pais. Muitas vezes, os pais conhecem-nos depois das aulas e dizem: ‘o meu filho pediu a música do Vem aí o lobo’, sem saber o que era. E o feedback que temos que, muitas vezes, os miúdos preferem um livro que um brinquedo ou ir para um parque infantil. Também temos crianças com dificuldades na fala e os pais dizem que foi graças às músicas mais simples que começaram a dizer as primeiras palavras. E em casos com autismo, por exemplo, ficam mais suscetíveis à música, o que as ajuda na concentração, expressividade e imaginação, porque acabam por procurar muitos livros.

Como é a reação dos miúdos às aulas da Bolinha de Música?
Vêm às sessões já com pedidos de músicas. Às vezes é difícil porque temos as sessões preparadas e elas querem ouvir o Urso Papão o Tubarão. Já vêm de casa com a bagagem das músicas e acabam por pedir o que querem ouvir.

E como é que é a relação dos moradores da Amadora ao vosso projeto?
Trabalhei muitos anos num colégio na Amadora e o feedback que tenho deste projeto é muito positivo. Quando abri a fábrica, uma mãe disse-me: “a Amadora precisava de um espaço destes. Obrigada”. Isto porque tinha de ir para fora da cidade quando queria levar os filhos a fazer este tipo de atividades. Também trazemos cá outros artistas, já tivemos teatro e ciência para os mais novos. Acaba por ser bom porque as pessoas da Amadora não têm de ir a Lisboa, Cascais ou Oeiras e encontrar estas atividades.

Recentemente apresentaram o livro “Tudo pelo Ar” na biblioteca de Alcântara. Como foi o processo de criação?
Criei a melodia principal de “Eu Quero Ser Feliz” [música do livro] depois de um concerto que fizemos em Benfica. Decidimos criar a história de um dinossauro, um animal que os miúdos gostam muito, mas criámos um animal bem-disposto e amigo, ao contrário do expectável num dinossauro. Tivemos a ajuda do Rúben, um músico e instrumentista jazz que está a estudar Jazz na Escola Superior de Música de Lisboa, e que nos ajudou em ter um estilo blues. Já o ilustrador João Rodrigues ajudou na estrutura do livro e a editora Poets and Dragons colaborou na parte da revisão da letra.

Qual o momento da Bolinha de Música do qual mais se orgulha?
Lembro-me de estar sentada ao computador, num domingo à tarde, e dizer: ‘vou criar o meu projeto e vai-se chamar Bolinha de Música’. Tudo o que veio daí foi incrível. Temos sete livros maravilhosos, um espaço que é quase uma casa para nós. Orgulho-me de ter tido uma luzinha, mesmo sem saber se ia funcionar ou não, e de dar nome ao que já estava a fazer.

Já têm livros publicados, fazem festas de aniversário, dão espetáculos ao vivo e aulas a miúdos e a famílias. O que ainda falta fazer com o Bolinha de Música?
Gostávamos muito de fazer um concerto em grande escala, bem como um concerto para auditórios com vários músicos, em conjunto com algumas histórias nossas. Criar uma trilogia que ainda não existe, mas vai existir, tipo Senhor dos Anéis, e levarmos de norte a sul do País. Para já, é esse o nosso grande objetivo.

Carregue na galeria para conhecer melhor o projeto Bolinha de Música.

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