Era um dia normal de trabalho, até que a dor e a tristeza tomaram conta do corpo de Ilda Vaz. Trabalhava numa farmácia quando viveu um dos episódios de racismo mais marcantes da sua vida, ao ser ofendida verbalmente por um dos clientes. Com mestria, transformou a injustiça que viveu naquele dia, e ao longo dos 59 anos, em música e resistência através de um grupo de batucadeiras no Bairro da Boba.
Embora tenha nascido em Cabo Verde, Ilda cresceu em São Tomé e Príncipe. “Fomos num navio de guerra, que não era próprio para transportar passageiros, durante oito dias e oito noites. As pessoas vomitavam, morriam e eram atiradas ao mar”, recorda.
Sempre muito observadora, guardou na memória fragmentos dessa viagem e começou a “escrever” a sua própria história em pensamento. A essas recordações juntaram-se as conversas com a mãe. “Ouvia-a contar o sofrimento das pessoas nas roças. Era uma escravatura silenciosa. Os patrões tratavam os trabalhadores como se fossem seus donos”, comenta.
Com o passar dos anos, o desconforto foi crescendo, mas para uma mulher negra e pobre, parecia não haver outra opção a não ser seguir em frente. Mudou-se para Portugal com o marido e começou a trabalhar em limpezas. Recorda várias situações em que se sentiu humilhada. “Como gosto de mim, não admito que ninguém ache que é mais do que eu”, afirma.
Como tranformou a dor em arte
O episódio da farmácia acabou por ser a gota d’água. Nessa altura, percebeu que precisava de contar a sua história e expressar a sua indignação de alguma forma. “Sempre tive jeito para a música, mas nunca fui à escola, por isso achava que não podia cantar”, admite.
Deixou o medo para trás e decidiu começar a compor as suas próprias músicas. Mesmo sem nunca ter aprendido a escrever, conseguiu transformar os seus pensamentos e memórias em canções de resistência. “Comprei um livro e aprendi a ler sozinha, mas não sei escrever”, conta.
Em 2010, integrou um grupo de batucadeiras na Amadora, onde vive há mais de 20 anos. Já em 2016, decidiu fundar o seu próprio grupo, batizado de Batukaderas Bandeirinha Panafrikanista Di Lisboa. É no Bairro da Boba que mais de dez mulheres se reúnem todos os sábados para cantar e tocar música africana.
Em 2023, lançou o seu primeiro single como resposta ao sofrimento vivido naquela farmácia. Através da música “Áfrika”, Ilda expressou a força das pessoas da sua terra: “Africano, povo unido, escravizado, corrente nos pés, chicote nas costas, mas a gente não pode desistir. Somos fortes, trabalhadores.” Chorou de alegria depois de conseguir gravar a sua primeira canção. “Foi muito difícil encontrar alguém que percebesse que era cantora e que tinha uma história forte para contar.”
Com o grupo de batucadeiras, já gravou outras músicas e videoclipes disponíveis no YouTube. Há um mês, lançaram o single “Mãe é para sempre” e têm mais duas novas canções prontas a estrear. Ilda reforça o desejo de atuar em eventos e concertos pela cidade.
A cabo-verdiana sonha com o dia em que possa viver apenas da música. Mãe de três filhos, considera-se uma guerreira. Divide o seu tempo entre as canções e o trabalho nas limpezas, sem perder a esperança de levar as suas histórias de resistência a mais pessoas. “O palco é a minha vida. Quando estou no palco, nasço de novo”, conclui.
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