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João Jesus: “Viver na Amadora é uma viagem pelo mundo”

Em entrevista à New In Amadora, o ator recorda a infância no Bairro da Quinta da Lage e quando ia comprar bolos à Cova Funda.

Cresceu entre a Quinta da Lage, Brandoa e Alfornelos, numa Amadora feita de contrastes. Passou parte da infância com a avó e, antes de sonhar com os palcos, câmaras e personagens, João Jesus, de 35 anos, viveu uma infância marcada pela rua, pela escola pública e por um quotidiano onde nem sempre havia espaço para ter foco. Era expulso quase todos os dias das aulas, até que a Expressão Dramática o fez descobrir outra forma de estar no mundo.

Fez o primeiro casting aos 16 anos e entrou para a Escola Profissional de Teatro de Cascais. Meteu na cabeça que ia ser ator e, a partir daí, nunca mais parou. Ainda teve uma curta passagem pelo universo do futebol, mais precisamente no Estrela da Amadora e no Sport Lisboa e Benfica, mas a representação acabou por falar mais alto. Apesar de ter deixado o futebol para trás, hoje em dia não perde um jogo do Estrela da Amadora. 

Teve o primeiro papel de protagonista em 2014, no filme “Os Gatos Não Têm Vertigens”, de António-Pedro Vasconcelos e, no ano seguinte venceu o Prémio Sophia na categoria de Melhor Ator Principal.

Além da representação, é também dobrador e, aos 19 anos, deu voz à personagem Ben, nos desenhos animados Ben 10. Recentemente, interpretou o papel de Joel Agapito na novela “A Fazenda”, da TVI, e atualmente interpreta Tomás Menezes na recém-estreada novela “Amor à Prova”, da mesma estação. Além disso, está em cena com o espetáculo “Menina Júlia”, ao lado de Helena Caldeira, no Teatro da Trindade. 

Em entrevista à New in Amadora, o ator fala sobre crescer na periferia de Lisboa, das memórias da Amadora que ainda carrega consigo, do impacto da arte no seu percurso e da importância de uma cultura mais inclusiva, dentro e fora do ecrã.

Viveu a infância e adolescência na Quinta da Lage, depois na Brandoa e em Alfornelos. O que mais recorda destes bairros?

Tenho boas recordações de viver na Amadora. Nasci na Quinta da Laje e as recordações são de brincadeira e de pura liberdade. Ainda assim, o cenário nem sempre era maravilhoso e tínhamos muitas rusgas. Andei na escola primária do Alto da Brandoa, depois estudei na EB 2,3 Sophia de Mello Breyner Andresen e fiz o ensino secundário na Escola Fernando Namora. Nesta altura, ainda tinha contacto com a Quinta da Laje porque a minha avó vivia lá e só abandonei esse bairro quando faleceu. Foi no secundário que comecei a estudar Expressão Dramática, uma AEC lecionada pela Carolina Vasconcelos. Foi a minha grande salvação porque, até então, não queria saber da escola. Era expulso quase todos os dias, como a maior parte dos alunos em determinadas situações. Queria era mexer-me, ser ouvido e partilhar. E a Expressão Dramática deu-me isso, acabei por ver a aula de uma forma diferente. Estávamos em roda, a fazer exercícios, a ouvirmo-nos a rir e a chorar. Lembro-me que isso me deu foco, e antes não estava a conseguir ter esse foco na sala de aula.

Crescer na periferia de Lisboa tornou o seu caminho como ator mais difícil ou deu-lhe uma perspetiva diferente?

Obviamente que a periferia dá-nos uma certa distância. Não nos dá as posses para frequentar determinados espetáculos, concertos, cultura, ter formação e isso privou-me um bocado. Por outro lado, nunca me senti posto de parte. Tendo em conta que sou um rapaz europeu e branco, acho que isso me facilitou. Nunca pareci ser de um bairro e as pessoas nunca acreditam que tivesse nascido no bairro da Quinta da Lage. É muito difícil falar sobre isso, porque era sempre mal visto. Então relacionam-me muito diretamente com Cascais e, de repente, parece que nasci em Cascais. Também nunca me meti em zonas ou em casos que me desviassem do caminho. Não ia para grupos mais violentos, sempre tive cabeça para não me perder totalmente. Mas se tivesse outra origem ou fisionomia, acho que não teria sido tão fácil.

Costuma inspirar-se em pessoas e experiências do seu bairro ou da sua infância na Amadora para criar as  personagens como ator?

Sim, em vários trabalhos. Sinto essa relação direta dependendo das personagens. Por exemplo, “Os Gatos não têm Vertigens”, em 2014, foi o trabalho onde senti mais perto a realidade da minha infância e adolescência. A história não tinha nada a ver, mas lembro-me que a minha personagem, o Jó, sentia uma angústia muito semelhante ao que tinha vivido na infância. Nunca vou encontrar uma personagem que seja exatamente aquilo que vivi, mas a Amadora deu-me muito mundo. E, se calhar, vou buscar muitas coisas de forma inconsciente para a minha profissão. Costumo dizer que não viajei muito na infância e na adolescência, mas também não era preciso, porque viver na Amadora é uma viagem pelo mundo.

“Os Gatos Não Têm Vertigens”, de António-Pedro Vasconcelos

Quais os restaurantes ou cafés que mais gosta na Amadora? Por exemplo, qual é o espaço que ninguém conhece e que é o seu preferido?

Quando era miúdo, ia comprar bolos à Cova Funda e à Taberna do Zinco. Depois, no Bairro do Bosque, lembro-me bem do restaurante Chafariz. Claro que o Babilónia também me marcou muito, mas um cafezinho que ninguém ouviu falar, em que estou muitas vezes, é o Café del Negro, quando vou ver os jogos do Estrela da Amadora.

Por falar em futebol, jogou no Estrela da Amadora e no Benfica. O que o fez escolher a representação e não o futebol?

Nunca meti na cabeça que ia ser jogador da bola. Se tivesse decidido, o meu foco tinha-se virado para aí. Na altura, o Paulo, o meu padrasto, foi ver a apresentação da peça de Expressão Dramática nos Recreios da Amadora, e começou a perceber que aquilo teve impacto em mim. Ele é que me propôs ir para a Escola Profissional de Teatro de Cascais. Tinha 16 anos, fui fazer o casting e fiquei. O treinador do Benfica perguntou-me se eu ia sair, e disse que sim. A partir daí nunca mais parei, meti mesmo na cabeça que ia ser ator e lancei-me.

Os atores vindos de contextos semelhantes ainda continuam a ter de passar por desafios?

Todos temos problemas, independentemente da classe social, sejam familiares ou humanos. Mesmo quem nasce em berço de ouro vai ter dificuldades porque tem de encontrar uma identidade, um caminho próprio e o seu foco. Nada pode ser de mão beijada para ninguém. Conheço um caso muito interessante que vive em Cascais, o Coio Só. Tem traçado o seu percurso, também vindo de um bairro. Há muitos que o fizeram e é preciso luta, persistência, vontade e paixão para nos formarmos e acreditarmos no que estamos a fazer.

Referiu numa entrevista que gostava de fazer um documentário sobre o seu bairro na Amadora. Ainda tem esse sonho? Que outros projetos ligados à Amadora gostaria de fazer?

Falta-me reunir as pessoas e o material certo, perceber como está o bairro neste momento. Estive lá no ano passado e já está muito diferente, com muito menos casas, e ainda o queria apanhar antes de desaparecer totalmente. A verdade é que não consegui dedicar a isso por excesso de trabalho. Tenho feito muitos projetos seguidos e em simultâneo, o que me ocupa o dia inteiro. Mas agora, como vou parar, essa ideia pode voltar.

Enquanto ator já teve papéis em diferentes áreas. Na sua opinião, como o cinema e a televisão podem contribuir para uma representação mais justa e completa da Amadora?

Há quatro anos, fiz um documentário, “Entre Traços: 30 Anos de Banda Desenhada”, para a Amadora BD. Há um realizador, Basil da Cunha, que fez uma curta na Cova da Moura e recordo-me de uma novela que se passava na Amadora, “Alma e Coração”. Lembro-me do cenário da rua na SP Televisão, que estava muito idêntico à Cova da Moura. Claro que também gravaram na própria Cova da Moura. Esta novela que estou a fazer, “Amor à Prova”, passa-se no Montijo. E quando se vê uma parte da cidade, aparecem umas letras onde se pode ler “Montijo”. Ainda não houve algo que dissesse mesmo “Amadora”, um foco direto. Também houve uma altura que tive uma ideia para uma montagem de teatro relacionada com o rancho folclórico, porque dancei no rancho da Brandoa. Acho que, nos tempos em que estamos a viver, tem de haver essa inclusão. Os elencos têm de ter mais variedade, como aconteceu em “A Fazenda”, na TVI. Esperemos que isso não acabe novamente.

Neste momento, está a interpretar a personagem Tomás Menezes, na novela “Amor à Prova”. O que é que diria hoje ao jovem João que cresceu na Amadora a sonhar com a representação?

Dizia-lhe “parabéns”. Tudo o que pediu está a acontecer, tudo aquilo que lutou também conseguiu e que não pare de lutar, de acreditar e de sonhar.

E que conselhos daria aos jovens da Amadora que sonham seguir a carreira de ator?

Digo para se focarem na bondade, na boa relação entre todos e nos seus sonhos. Espalhem amor, alegria e paz por todos, porque depois as coisas acontecem naturalmente. Independentemente da profissão, se forem com boas motivações, tudo será mais fácil.

Carregue na galeria para ver algumas das imagens do ator quando vai assistir ao jogos do Estrela da Amadora.

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