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Nova série de Leonardo DiCaprio está prestes a estrear na televisão

Em “Touro Sentado”, o ator volta a abraçar uma das suas causas favoritas: a divulgação da história dos povos nativo-americanos.

Figura pouco conhecida fora da América do Norte, Touro Sentado foi um líder indígena que se tornou um ícone da resistência dos nativos norte-americanos à invasão dos colonos brancos. Oriundo da tribo Lakota Hunkpapa, com terras ancestrais no atual estado do Dakota do Sul, o espírito indomável de Tatanka Iyotanka (como era chamado no seu idioma) permanece um símbolo de coragem e dignidade.  

A sua trajetória de “profeta, guerreiro e mártir” serve de fio condutor ao documentário “Touro Sentado” (“Sitting Bull”, no original). Esta produção de dois episódios, criada pela Appian Way, – empresa fundada por Leonardo DiCaprio – tem estreia marcada para segunda-feira, 19 de janeiro, pelas 22h15, no Canal História (disponível nas operadoras MEO, NOS e Vodafone nas posições 91, 112 e 125, respetivamente).

Os Lakota Hunkpapa, ramo das Grandes Planícies da confederação Sioux, viviam em harmonia com o ciclo da natureza e dependiam do búfalo (considerado um animal sagrado) para alimentação, vestuário e ferramentas. A sua espiritualidade centrava-se no Wakan Tanka, “o Grande Mistério ou força vital que anima o universo inteiro, presente em todos os seres e elementos”. 

A par com os Osage, povo das planícies centrais que mais tarde se fixaram em Oklahoma, foram um dos grupos mais massacrados pelos colonos europeus. Durante o século XIX, os Lakota viram o seu território ser tomado, os rebanhos dizimados e os filhos enviados para internatos, onde se procurava apagar a sua língua e costumes.

Os Osage, retratados no filme “Assassinos da Lua das Flores” (2023), de Martin Scorsese, — protagonizado precisamente por DiCaprio, — sofreram destino semelhante. Após a descoberta de petróleo nas suas terras, tornaram-se uma das comunidades mais ricas do mundo. Contudo, a riqueza foi sol de pouca dura. A prosperidade despertou a cobiça dos seus vizinhos brancos, que recorreram a casamentos oportunistas, cometeram assassinatos e fraudes para se apoderarem dos seus terrenos. Entre as décadas de 1910 e 1920, foram mortos centenas de indígenas, um período negro da história norte-americana, hoje conhecido como Reino do Terror.

Tanto os Osage como os Lakota partilham uma herança marcada pela resistência e pela perda, fruto da violência colonial que moldou os Estados Unidos. Embora com formatos diferentes, “Assassinos da Lua das Flores” e “Touro Sentado” são dois testemunhos de memória, que suscitam “uma reflexão moral e política sobre o avanço incessante dos colonos pelas imensas planícies indígenas”.

A série documental reconstrói momentos determinantes deste período do século XIX e da jornada de Touro Sentado, através de uma narrativa conduzida por Mo Brings Plenty (da série “Yellowstone”) e com episódios recriados pelo ator indígena Michael Spears (do filme “Dança com Lobos”). Ao longo dos dois capítulos, são revisitadas batalhas, alianças e sacrifícios, sustentados por uma investigação rigorosa e pelos testemunhos de vários historiadores que ajudam a situar o espectador nas tensões políticas da época.  

Realizado por Christopher Cegielski e Phillip Montgomery, o documentário reúne ainda participações de Wayne Charles Baker, Glen Gould, Joel Oulette e David Bronfman, com Leonardo DiCaprio a assumir o papel de produtor executivo. Ao longo dos anos, o ator tem demonstrado a sua dedicação à defesa de causas como o combate às alterações climáticas e à perda de biodiversidade, a proteção de ecossistemas e de comunidades indígenas.

Em 2019, DiCaprio juntou-se a Laurene Powell Jobs (viúva de Steve Jobs) e ao milionário Brian Sheth para criar a Earth Alliance, organização sem fins lucrativos que reúne recursos e financiamento para fundos de emergência ambiental. O ativismo estende-se também à sua carreira, que tem sido marcada pelo seu envolvimento em várias produções que procuram dar visibilidade às comunidades indígenas e aos desafios que enfrentam no mundo contemporâneo.  

“Touro Sentado” reflete o empenho de DiCaprio em divulgar as origens e o orgulho dos povos nativo-americanos, esforço que o ator tem estendido também ao Brasil. Em 2023, assumiu a co-produção de “Somos Guardiões”, documentário filmado no Maranhão, que acompanha vigilantes indígenas conhecidos como Guardiões da Floresta amazónica na defesa das suas terras contra madeireiros e apropriações ilegais.  

A ligação de DiCaprio aos temas indígenas aprofundou-se com a sua participação em “Assassinos da Lua das Flores” (“Killers of the Flower Moon”, no original). No filme de Scorsese, baseado em acontecimentos verídicos, interpreta Ernest Burkhart, um homem simples e facilmente influenciado pelo tio (Robert De Niro), que o leva a casar com Molly (Lily Gladstone), uma mulher indígena, para se apoderar da fortuna originada pelo petróleo. A narrativa expõe o genocídio dos Osage nos anos 20 e denuncia a ambição devastadora de quem via nos recursos naturais um bilhete para a riqueza, ignorando a tragédia humana que criava.  

Reconstituindo vários acontecimentos, enquadrados por especialistas e historiadores, “Touro Sentado” retoma esse diálogo com o passado, explorando o valor de uma pesada herança que teima em resistir. O resultado tem colhido elogios do público e da crítica, e conta com 7,8 estrelas em 10 no IMDb.

“Este documentário é valioso como lição de história, dando corpo documental a uma figura mítica e detalhando as realidades políticas que levaram os EUA a seguir as políticas que seguiram”, salienta John Anderson, do “The Wall Street Journal”.

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