cultura
ROCKWATTLET'S ROCK

cultura

Pedro Chagas Freitas e a depressão: “Falamos muito de saudade, mas pouco de sofrimento real”

No seu novo livro, "A Amiga Cinzenta", o escritor aborda um tema que considera ser pouco falado em Portugal. "Isso pode custar vidas."

A comovente história do filho de Pedro Chagas Freitas tocou, em 2024, o coração de muitos portugueses. Benjamin, com seis anos, enfrenta uma doença rara e incurável no fígado, tendo passado vários meses internado no Hospital Pediátrico de Coimbra enquanto os pais procuravam um dador de fígado que lhe pudesse salvar a vida — que apareceu e o transplanta foi realizado em junho.

Este foi, naturalmente, um dos períodos mais difíceis da vida do escritor que, todas as semanas, partilhava atualizações nas redes sociais sobre o estado de saúde do filho. Durante essa época, passou a ter ao seu lado aquilo a que chamou “uma amiga cinzenta” e que, agora, inspira o seu novo livro.

“A Amiga Cinzenta: A depressão explicada às crianças (e aos adultos)” chegou às livrarias a 18 de novembro e é, segundo o escritor, uma obra indispensável para qualquer pessoas, de miúdos a adultos.

“Se tem filhos, leia-o. Se foi criança, leia-o. Se alguma vez se sentiu sem força, sem nome, sem chão, leia-o. Se já acordou com uma nuvem presa ao peito, leia-o. Se ama alguém que luta com a tristeza, leia-o”, lê-se na sinopse.

É também a obra perfeita para quem quer entender melhor a depressão e, simultaneamente, para quem já a conhece. “A Amiga Cinzenta” não quer ser apenas um livro, mas sim “um espelho, um abraço” e uma “corda lançada a quem acha que se está a afundar em solidão”.

Este novo trabalho, explica o autor de 46 anos à NiT, “nasceu devagar, como quase tudo o que realmente importa”. Aqui entra num dos temas mais difíceis da experiência humana: a depressão. O processo de escrita, confessa, não foi fácil. “Foi íntimo e cirúrgico. Houve pausas, hesitações, noites inteiras a tentar encontrar a palavra certa para não ferir quem já está ferido.”

Escrever sobre a depressão, diz Chagas Freitas, nunca foi um objetivo pré-definido. Foi, sim, um tema que o escolheu. “Atravessa famílias inteiras em silêncio, destrói sem se fazer anunciar”.

No entanto, não houve um momento exato em que o livro começou a existir na sua cabeça. A ideia foi-se acumulando ao longo do tempo, mas ganhou força quando começou a prestar mais atenção àqueles à sua volta. “Houve um acumular de silêncios, um conjunto de olhares que reconheci em miúdos e adultos que carregavam o mesmo peso. Um dia percebi que este livro precisava que eu tivesse coragem para o escrever.”

A obra atravessa várias faixas etárias e esse foi um dos principais desafios. Descreve a experiência de escrita como tentar comunicar em duas línguas ao mesmo tempo: “a língua simples da infância e a língua fatigada da idade adulta”. Para ele, ambas dizem a mesma verdade, “mas usam melodias diferentes”. O maior cuidado foi garantir que nenhuma voz abafava a outra.

Tem 48 páginas.

A ideia de lhe dar “uma casa de papel” surgiu da necessidade de não deixar quem sofre sentir-se tão sozinho, perdido e desamparado. A inspiração não veio inteiramente da sua própria realidade, ou da do filho, mas sim de histórias que ouviu. “Inspirei-me na humanidade frágil que todos carregamos, por mais que passemos a vida a fingir força.”

Mesmo assim, há um pouco da sua história no livro. “Todos temos uma amiga cinzenta. Todos lidamos com ela, de um modo ou de outro. Já me parti todo, já vi pessoas que amo partirem-se todas, e isso é uma forma de dor que nos redesenha. Quando escrevo, faço-o sempre de um lugar onde vi o abismo de perto. Não conheço outra forma de escrever.”

Houve também um prazer neste trabalho. Afinal, o autor sentiu que estava a criar algo capaz de ajudar alguém num momento crítico. “Se estas páginas podem ser um pequeno gesto de companhia para quem se sente sozinho, é um livro de sucesso. A literatura pode ser uma mão estendida.”

Por outro lado, não faltaram obstáculos ao longo do processo, mas houve um que provou ser mais difícil de ultrapassar: encontrar o tom certo que evitasse tanto a banalização como o exagero. “É muito fácil cair num dos extremos. Eu queria ficar no meio. Acho que é lá que a verdade costuma morar.”

Quanto ao público-alvo da obra, Pedro Chagas Freitas é claro. “É para todos. Para quem sente, para quem sofre, para quem observa, para quem existe. Para os que estão dentro da tempestade e para os que tentam ajudar alguém a sair dela. É para pais, filhos, professores, amigos, para qualquer pessoa que já se questionou se o que sente tem nome.”

Acredita também que a depressão é um tema ainda pouco debatido em Portugal, visto que somos “um País habituado a esconder a dor atrás de ironias e de frases feitas”. “Falamos muito de saudade, mas pouco de sofrimento real.” Confessa achar urgente criar uma cultura onde pedir ajuda e admitir fragilidades não seja visto como fraqueza, mas sim como um ato de coragem. “Estamos atrasados nesse debate e isso pode custar vidas.”

No final, o que mais deseja é que os leitores levem deste livro a perceção de que não estão irremediavelmente partidos e que continuar a caminhar é possível. “Sentir-se perdido não é sinal de fracasso; é parte do percurso humano. Se este livro lhes der um minuto de paz, cumpriu o que quis fazer.”

“A Amiga Cinzenta” tem 48 páginas e está atualmente à venda por 13,41€, graças a um desconto de 10 por cento. No entanto, o valor sem promoções será de 14,90€.

Carregue na galeria para conhecer outras obras que chegam às livrarias em novembro.

ARTIGOS RECOMENDADOS