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Perdeu o bebé um mês após descobrir a gravidez. Agora, transformou a dor num livro

Em "Até no Deserto Nascem Flores", Ana Margarida homenageia o filho que partiu e apoia outras mulheres que vivem a mesma dor.

Naquele momento, o mundo de Ana Margarida parou. Deitada na maca do consultório, viu o rosto da médica mudar de expressão e ouviu as quatro palavras mais dolorosas que uma grávida pode escutar: “Você teve um aborto”. No meio da dor, encontrou na escrita uma forma de lidar com o luto. Agora, a amadorense lançou um livro sobre a sua trajetória para ajudar outras mulheres a reencontrarem-se depois da perda gestacional.

“Primeiro veio a fase da negação, depois a fase da culpa, em que senti que tinha feito alguma coisa de errado e, por isso, perdi o bebé. E, então, veio a fase do luto. Foi nesse momento que me refugiei na escrita. Foi a forma que encontrei para conseguir lidar com a dor”, recorda a autora, de 35 anos.

A 8 de abril de 2025, Ana recebeu a notícia mais feliz da sua vida. Poucos meses antes, tinha decidido seguir o sonho de ser mãe. Não queria esperar pela “pessoa certa” e, por isso, recorreu à inseminação. “Foi uma sensação inexplicável. Já me sentia ligada a ele antes mesmo de estar dentro de mim”, conta.

No entanto, exatamente um mês depois, a 8 de maio, descobriu que tinha perdido o bebé. A médica explicou que se tratava de um aborto retido, uma situação em que ocorre a morte do feto, mas este permanece no útero — algo relativamente comum nas primeiras gravidezes. “Depois disso, fui tentando encontrar estratégias para conseguir lidar com esta dor e reencontrar-me novamente”, explica.

Em julho, decidiu viajar até Marraquexe. Foi aí que sentiu vários “sinais do universo” e conseguiu conectar-se ainda mais com as próprias emoções. Inicialmente, andava sempre com um bloco de notas onde escrevia livremente sobre tudo o que sentia e pensava. Mais tarde, surgiu a ideia de organizar esses textos num livro.

Quebrar tabus

Em “Até no Deserto Nascem Flores”, Ana relata a descoberta da gravidez, a perda gestacional, a viagem a Marraquexe e outros episódios marcantes do seu processo de recuperação. A obra recupera ainda momentos importantes da sua vida antes da gravidez.

“Trabalho em design há oito anos e sempre fui um pouco workaholic. Em 2020, comecei a ter sintomas de ansiedade e desenvolvi agorafobia, ou seja, o medo de sair sozinha. Mas era muito reticente em procurar a ajuda de um psiquiatra e de um psicólogo”, conta.

Só quatro anos depois, em 2024, decidiu procurar apoio profissional e iniciou tratamento com medicação e psicoterapia. “No livro também falo um pouco sobre isso. Há um capítulo dedicado à saúde mental”, refere. A intenção é usar o seu testemunho para ajudar a quebrar alguns tabus que ainda existem em torno da psicologia e da psiquiatria.

Foi, aliás, após iniciar o tratamento que sentiu que estava preparada para avançar com o sonho da maternidade. “Lembro-me do dia em que perguntei à psicóloga: ‘Será que tenho capacidade e estou finalmente preparada para isto?’ Ela riu-se e respondeu: ‘Claro que sim, Ana. É para isso que cá estamos e é para isso que vamos trabalhar’.”

O processo do luto e o recomeço

No livro, a designer relata outras estratégias que utilizou para ressignificar a perda do filho. Quando regressou de Marraquexe, decidiu realizar uma cerimónia em sua homenagem. “Juntei a minha família, comprei um vaso e algumas sementes. Cada um colocou uma semente dentro do vaso, que ainda hoje tenho. Foi a forma que encontrei para o fazer nascer de outra maneira”, conta.

Além disso, escreveu uma carta onde colocou tudo o que gostaria de lhe ter dito. Guardou-a num pequeno frasco com uma flor de mal-me-quer e lançou-o ao mar. “Senti alívio por ter dito aquelas palavras e por ter honrado a alma dele”, afirma.

A 22 de novembro, realizou-se o lançamento do livro no Salão Nobre da Junta de Freguesia de Casal de Cambra, no concelho de Sintra. A sala encheu-se de pessoas de todas as idades, dos 11 aos 85 anos. Ana recorda esse dia com especial carinho, não só por estar a homenagear o filho que perdeu, mas por estar a iniciar um novo capítulo da sua vida.

“Foi um misto de emoções porque estava a prestar homenagem ao bebé que tinha perdido e já tinha outro bebé arco-íris dentro de mim, algo que só eu sabia.” Isto porque, em outubro de 2025, Ana decidiu tentar engravidar novamente. 

Uma nova chance

Escrever este livro foi essencial para processar tudo o que aconteceu e viver a nova gravidez com mais serenidade e presença. Agora, com 36 semanas de gestação, aguarda com felicidade a chegada de Francisco Miguel.

A história é baseada em factos reais, embora seja narrada por Caetana, uma protagonista fictícia. Para Ana, era importante contar a história tal como aconteceu. Afinal, o principal objetivo da obra é ajudar outras mulheres que estão a passar, ou já passaram, pela mesma experiência. O livro pode ser adquirido por 12€ através da conta de Instagram de Ana Margarida.

“És a flor invisível que brotou no chão mais árido da minha vida. Que em cada palavra escrita, em cada página virada e em cada cor, permaneça a memória da tua luz discreta e do amor que ficou para sempre. Da mãe, Ana Margarida”, relê, emocionada, a dedicatória que escreveu para o primeiro filho.

Carregue na galeria para conhecer a capa do livro “Até no Deserto Nascem Flores”.

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