Liliana Madureira aprendeu a andar de bicicleta ainda em miúda, com os amigos na rua. O dente da frente partido, que mantém até hoje, não a deixa esquecer esse dia. Defensora da mobilidade ativa, a professora é a dinamizadora do Girls Ride em Alfragide. Através do projeto, promove viagens solidárias para angariar bicicletas para alunos da Brandoa, enquanto incentiva a perder o receio de pedalar.
“As mulheres têm medo de partilhar o espaço com os carros. Não há muito respeito e a infraestrutura também não acompanha. Depois, passam esse medo para os miúdos e criam uma maior resistência em deixá-los andar de bicicleta”, comenta.
Em 2021, cansada de estar confinada devido à pandemia, criou o grupo Alfragide sobre Rodas, que mais tarde viria a dar origem ao Girls Ride. Em conjunto com a associação de pais da escola dos seus filhos, do Agrupamento de Escolas Almeida Garrett, em Alfragide, Liliana organizava diversos passeios, além de comboios de bicicletas.
As mulheres foram aderindo cada vez mais à iniciativa e, aos poucos, perdendo o receio de pedalar. Foi o caso de Raquel Coelho, de 47 anos. A cerimonialista conheceu o Girls Ride e juntou-se ao grupo com o objetivo de perder o medo de andar de bicicleta em Lisboa. “Agora uso-a todos os dias. É o meu principal meio de transporte”, conta.
Desde então que já passou por diferentes países. Em Utrecht, nos Países Baixos, conheceu uma realidade totalmente diferente no que diz respeito ao uso da bicicleta. Na Escócia, também teve uma experiência bastante positiva. “A cultura é totalmente diferente. Se estamos a querer fazer uma subida, o carro lá em cima vê, pára e diz: ‘Vai, força, força!’”, recorda.
Para ela, este poderia ser um cenário possível de reproduzir em Lisboa. Com exceção de algumas colinas e pontos específicos da cidade, a cerimonialista considera que existe muito potencial por explorar. “Consigo visualizar Lisboa sem tantos carros e vejo uma cidade espetacular para andar a pé e de bicicleta”, diz.
Dez dias sobre duas rodas
Juntamente com mais duas mulheres do grupo, Ana Pereira e Nádia Morais, Liliana e Raquel vão partir para uma aventura no próximo dia 4 de agosto. O Girls Ride vai realizar a segunda edição do “Pedalar para Mudar”, um movimento que alia o desporto, a mobilidade ativa e a solidariedade e que conta com o apoio da Unfuel, da Bicicultura e da Cenas a Pedal.
Enquanto o quarteto estiver a pedalar, a comunidade vai poder doar qualquer valor para a angariação de fundos do grupo. Todo o dinheiro arrecadado será convertido na compra de bicicletas, que serão doadas à Escola Básica EB1/JI Sacadura Cabral, na Brandoa. Ali Liliana, professora do primeiro ciclo, irá ensinar os miúdos a andar de bicicleta.
“Dos 40 alunos que tenho, 30 não sabem andar de bicicleta. Queremos mudar isso. Afinal, acredito que, a partir do segundo ciclo, muitas crianças já poderiam ir para a escola de bicicleta”, afirma.
As quatro mulheres pretendem percorrer 300 quilómetros até 13 de agosto. O percurso passa pela costa da Galiza, desde Valença até Pontevedra, seguindo depois pela costa até Santiago de Compostela. Durante a viagem, vão partilhando nas redes sociais vários registos e um pouco das experiências vividas.
“Algumas pessoas nem sequer vêm connosco, mas, ao acompanharem-nos, ficam motivadas para depois fazerem as suas próprias viagens ou irem pedalar com outras pessoas”, afirma Liliana.
Além disso, nenhuma delas é atleta, nem vive da bicicleta. Pelo contrário, são mulheres comuns, unidas pela paixão pela liberdade sobre duas rodas. “Não temos super equipamentos, calções disto ou sapatos daquilo. É algo prático e simples, em que as pessoas olham e pensam: ‘Eu conseguiria fazer isto’”, acrescenta Raquel.
Um projeto que impacta mulheres e crianças
No ano passado, o Girls Ride realizou a primeira viagem solidária. No final, conseguiu angariar quatro bicicletas, que foram entregues a alunos de Alfragide e da Brandoa, depois de um concurso de artes. “Não queríamos apenas oferecer a bicicleta, até porque seria difícil escolher quem a recebia. Então, organizámos um concurso e, com o apoio dos professores, presenteámos os melhores”, conta Liliana.
Este ano, querem ir mais longe. Para garantir que as bicicletas são realmente utilizadas, optaram por um modelo de doação mais educativo, que inclui também o ensino. Não existe uma meta definida para o número de bicicletas. “O que conseguirmos angariar será ótimo.. As despesas da viagem e do alojamento são suportadas por nós”, reforça.
Através dos pequenos passeios de domingo ou de aventuras maiores, Liliana quer dar confiança a mais mulheres para criarem uma relação próxima com o transporte de duas rodas. “Muitas vezes vamos até Monsanto. É uma forma lúdica de desbloquear essa capacidade para depois usar a bicicleta no dia a dia”, explica.
Com o Girls Ride e o movimento “Pedalar para Mudar”, a professora pretende contribuir para uma Amadora mais ativa, onde as famílias se sintam livres para pedalar onde quiserem. “Aprendemos a andar de bicicleta na rua, brincávamos uns com os outros, mas muitas mães acham que hoje tudo é perigoso. Sem contar que, com a chegada dos filhos, é fácil tornar-se sedentária. O projeto quer ajudar a mudar um pouco esse cenário”, conclui.
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