João Penim habituou-se a vencer desafios ao longo da vida, sobretudo os que exigiam sempre mais resistência e destreza física. Foi campeão nacional de luta greco-romana, destacou-se no futebol de salão e, na tropa, chegou a ser considerado o homem mais bem preparado entre 3.700 militares. Tudo mudou quando um diagnóstico de cancro do cólon o levou ao hospital, o obrigou a três cirurgias e a viver quase um ano com uma bolsa de colostomia. Hoje, aos 75 anos e recuperado, acredita que foi precisamente o exercício físico que lhe devolveu a vida.
O diagnóstico de cancro do cólon surgiu de forma inesperada, durante exames de rotina. “Descobri em novembro de 2024 e fiquei arrasado. Nunca tive dores, nada, mas tive de me aguentar”, recorda o amadorense. No mês seguinte, já estava internado. As orientações das enfermeiras e do cirurgião ajudaram-no a enfrentar uma fase particularmente difícil. “A verdade é que o início correu mal. Perdi 16 quilos. Entrei com 85 quilos e saí com 68″, relembra. Há momentos de que mal se lembra. “Foram três anestesias, uma por semana. Houve muitas coisas de que nem me apercebi.”
O que nunca esqueceu foi a colostomia, necessária durante a fase de recuperação, por vezes temporária, outras vezes permanente. “Andei dez meses com o saco e a verdade é que uma pessoa não se sente bem a andar com uma coisa pendurada”, admite. Com o incentivo do médico e da mulher, ultrapassou a vergonha e foi regressando, pouco a pouco, à rotina. Ainda durante o internamento, o cirurgião insistia para que se levantasse e voltasse a mexer o corpo.
A quimioterapia trouxe novos obstáculos. Perdeu força, energia e sofreu com a descamação das mãos e dos pés. Durante algum tempo, precisou de uma cadeira de rodas. “Não conseguia mexer-me. Não conseguia pôr os pés no chão”, recorda.
Assim que recuperou das cirurgias, inscreveu-se no ginásio com a mulher. “No início era difícil. Por causa do saco, os outros utilizadores olhavam muito”, admite. Mas, com o acompanhamento de Sara Broa, personal trainer da PT Clinic, conseguiu concentrar-se nos treinos e recuperar a condição física.
Os resultados surpreenderam até o próprio médico. “Quando fui tirar o saco, a 25 de outubro de 2025, o médico disse-me: ‘No estado em que o teu organismo está, a medicação fez 30 por cento, mas tu, com o ginásio e tudo aquilo que fizeste, fizeste os outros 70 por cento’.”
Ao fim de oito meses de treino, recuperou grande parte da energia, da massa muscular e da disposição que tinha antes do cancro. Hoje levanta 100 quilos no leg press e voltou aos cerca de 80 quilos. Apesar da felicidade pelo resultado alcançado, faz questão de dividir o mérito. “A Sara aperta bem, não é brincadeira”, diz, entre risos.
Natural de Lisboa, João vive na Amadora há mais de 40 anos. Mudou-se para o concelho aos 33 anos, depois de casar. “Uma amiga disse-me que estavam a construir um bairro novo chamado Colina do Sol. Comprámos casa e cá ficámos até hoje”, conta.
Nunca deixou, porém, de trabalhar em Lisboa. Depois de sair da tropa, entrou para o setor da hotelaria, onde continua até hoje. Todos os dias desloca-se até à sede do Grupo Sana, no Parque das Nações, onde desempenha funções ligadas à administração e à logística. “Trabalho há 41 anos nesta empresa. Reformei-me há sete, mas fiz um contrato especial para continuar a tratar de algumas coisas. Não consigo ficar parado em casa”, admite.
Prestes a completar 75 anos, João diz que já não pede muito à vida. Quer continuar a trabalhar, treinar três vezes por semana e aproveitar a família. Além da mulher e da filha, tem um neto de sete anos, que se tornou o seu companheiro inseparável.
Juntos jogam à bola, viajam e vão comer mexilhões. Depois de vencer o cancro, poder vê-lo crescer tornou-se a maior recompensa de todas. “O meu objetivo é esse: continuar a trabalhar, brincar, divertir-me e ver o puto feliz.”








