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Este ex-personal trainer amadorense decidiu pôr os séniores do Zambujal a caminhar

O projeto CAZA 100 Caminha reúne participantes entre os 78 e os 92 anos e já se tornou um ponto de encontro semanal no bairro.

Faça chuva ou faça sol, Telmo Carrilho não falha um encontro. Todas as sextas-feiras de manhã lidera uma caminhada de uma hora pelo bairro do Zambujal com um grupo de séniores da região. Há seis anos que o consultor imobiliário dedica parte do seu tempo a ajudar os mais velhos a combater o sedentarismo e a manterem-se ativos.

“Somos entre sete e 12 pessoas, com idades entre os 78 e os 92 anos. Encontramo-nos à porta do Olimpo às 9h30, todas as sextas-feiras, e passamos uma hora juntos”, conta à NiA. Apesar de trabalhar atualmente como consultor da REMAX, Telmo tem formação em Desporto. Durante vários anos foi personal trainer e deu aulas de grupo em ginásios.

Foi através do projeto CAZA 100 Caminha que encontrou uma forma de continuar a promover a atividade física fora do contexto profissional. “Não escolhi ficar no fitness, mas queria continuar, de certa forma, ligado ao treino”, explica. O nome do projeto faz referência ao número 100, um objetivo ambicioso para o número de participantes, mas também à sonoridade de “sem caminha”, além do jogo de palavras entre “caminha”, de caminhar, e “cama”.

O almadense de 50 anos vive no Casal de São Brás há duas décadas e conheceu a Associação Recreativa CAZAmbujal através da mulher. “O Vítor Monteiro, gestor do projeto, trabalhava no IKEA com a minha mulher. Conheci a associação e percebi que poderíamos desenvolver projetos ligados ao desporto”, recorda.

Numa primeira fase, começou por dar aulas de GAP (Glúteos, Abdómen e Pernas), localizada e Tabata, um treino intervalado de alta intensidade. Os moradores do bairro pagavam um valor simbólico para participar nas sessões semanais. No entanto, uma lesão no joelho, seguida da pandemia de Covid-19, obrigou-o a interromper as aulas.

No final de 2020, depois de mais de seis meses em casa, sentiu necessidade de voltar à atividade. “Os mais velhos estavam claramente com dificuldades, sentiam-se sozinhos e deprimidos. Pensámos numa caminhada que podia ser para qualquer pessoa, mas acabou por fidelizar sobretudo os séniores”, conta.

Há três ou quatro participantes que o acompanham desde o primeiro dia. É o caso da dona Regina, uma das “mais carismáticas do grupo”, que funciona como ponte entre os participantes e o professor. “A dona Regina é mãe do Vítor, fundador da associação. É ela quem me confirma se vamos ter aula, se alguém vai faltar porque há um funeral ou porque está no hospital.” Não existem inscrições nem reservas de lugar. Nas caminhadas do CAZA 100 Caminha basta aparecer com roupa confortável e vontade de participar.

Cada sessão começa com um breve aquecimento em frente ao Olimpo. Depois, o grupo percorre cerca de 2,4 quilómetros, com algumas paragens para exercícios localizados, como agachamentos nos bancos dos jardins ou movimentos com bandas elásticas. “Depois fazemos um jogo. Passo uma bola entre eles e peço que digam o primeiro nome. Na volta, em sentido inverso, já começam a falhar. É uma forma de estimular também a parte cognitiva”, explica.

Mais do que incentivar a prática de exercício físico, estas caminhadas tornaram-se um momento de convívio e partilha. “Há ali um espírito de grande entrega e de pertença”, afirma. Em dias especiais, a dona Regina leva alguns petiscos e o grupo reúne-se na sala do Olimpo para comer e pôr a conversa em dia.

Para Telmo, é precisamente isso que dá sentido ao projeto. “Não ganho absolutamente nada. É uma atividade pro bono, sem qualquer retorno material. Mas a recompensa que tenho é emocional: aquilo que as pessoas me dão e aquilo que eu lhes devolvo em cada caminhada”, explica.

Também acompanha com satisfação a evolução de cada participante. De semana para semana, conseguem fazer um agachamento com maior amplitude ou manter uma postura mais correta durante os exercícios. O lado de personal trainer continua bem presente e reforça a importância destes pequenos progressos. “Temos de carregar o nosso corpo até ao fim dos nossos dias, por isso é muito importante estarmos bem física e mentalmente”, sublinha.

Essa forma de estar acompanha-o desde criança. Recorda-se de ser muito ativo e de, aos nove anos, participar em provas de corta-mato em troca de uma sandes mista e um sumo. “Talvez por isso me custe tanto ver que as pessoas se mexem cada vez menos.”

Sair da área do fitness nunca fez parte dos planos. Durante nove anos viveu em Angola para acompanhar a mulher, que queria regressar à terra natal. Começou por trabalhar como coordenador técnico de ginásios, mas acabou por seguir outro caminho. “O fitness ainda estava um pouco atrasado por lá e acabei por mudar para a área da logística e da navegação.”

Quando regressou à Amadora surgiu uma nova oportunidade profissional. “Um grande amigo sugeriu que fosse trabalhar na REMAX. Dizia que eu tinha jeito para a área comercial e podia aplicar essas competências na venda de casas”, recorda.

Ainda sob o efeito da adrenalina de uma sessão de bodyboard, sentiu aquele frio na barriga que acompanha as grandes mudanças e decidiu arriscar. “Abracei esta área há sete anos. Apesar de ter mudado de setor, a minha missão continua a ser ajudar os outros a terem uma vida melhor.”

Mesmo com os desafios da profissão de consultor imobiliário, encontrou significado no novo percurso. E continua a alimentar esse propósito através das caminhadas promovidas pela Associação Recreativa CAZAmbujal.

“Tudo isto me preenche. Quero continuar a trabalhar e a ajudar as pessoas nos projetos imobiliários, mas também manter a ligação a este projeto e trazer cada vez mais pessoas para a caminhada”, conclui.

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