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Fizemos um fact check de 15 teorias de Gustavo Santos sobre a saúde dos portugueses

Das vacinas à quimioterapia, pedimos a um profissional para analisar a validade científica das supostas "verdades" do apresentador de televisão.

Já comparou pessoas vacinadas a vítimas do Holocausto, afirmou que a quimioterapia “não passa de uma farsa” e até defende que os fármacos são responsáveis diretos por várias doenças. Ao longo dos últimos anos, o ex-apresentador de televisão Gustavo Santos tornou-se numa espécie de influencer da saúde alternativa, com grande impacto na sociedade portuguesa. No conjunto de todas as redes sociais, já é seguido por mais de 110 mil pessoas. 

Recentemente, o escritor e orador, de 48 anos, que se descreve como “livre, soberano e saudável”, apontou as suas críticas diretamente para Nuno Markl, que sofreu um AVC, a 20 de novembro. Gustavo Santos publicou um vídeo no Instagram, no qual descreve o radialista como “pálido, flácido, pré-obeso e pró-vacinas com orgulho”. 

“O Nuno não está numa cama de hospital porque faz 789 mil e 675 coisas ao mesmo tempo. O Nuno está na cama de hospital porque não faz uma: cuidar de si”, disse, de forma crua.

 
 
 
 
 
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A este apelo “ao amor-próprio” de Gustavo Santos — que terminou com um “Acorda Nuno, acorda Portugal — Markl não demorou a reagir, após a recuperação: “Querido Gustavo, estou muito zen agora e é muito zen que gostaria de te mandar para o caralho. Bom dia.”

Esta foi a mais recente de um conjunto com várias afirmações polémicas de Gustavo Santos sobre os alegados maus hábitos de saúde dos portugueses e a forma como a medicina convencional estará a prejudicar a vida de todas as nossas gerações. Por isso mesmo, a NiT falou com António Hipólito de Aguiar, médico de clínica geral, em Lisboa, para validar estas afirmações apenas e só do ponto de vista científico, sem outro tipo de avaliações.

Farmacêutico durante cerca de 25 anos e médico desde 2022, o bisneto do fundador da Farmácia Aguiar (que, atualmente, gere como diretor-técnico) é doutorado em ciências farmacêuticas, pela Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra, e tem um mestrado em Medicina, na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade de Lisboa.

Aguiar, de 56 anos, tem também mais de 10 obras publicadas (entre elas “Boas Práticas de Comunicação na Farmácia”, de 2014, e “Como Viver Mais e Melhor”, de 2012), já foi um convidado regular em talk-shows da televisão nacional para discutir temas ligados à saúde, e trabalha como docente universitário, na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias.

Selecionámos 15 das frases mais controversas do influencer Gustavo Santos. Estes são, então, os factos científicos que validam ou não essas teorias, segundo o especialista António Hipólito de Aguiar.

“O Nuno [Markl] está na cama de hospital porque não faz uma coisa: cuidar de si. Pálido, flácido, pré-obeso e pró-vacinas com orgulho.”

 

O que diz a ciência? 
“Doenças graves têm múltiplas causas: genética, ambientais e alimentares (poluição, toxinas dos alimentos), comorbilidades e acesso a cuidados. A falta de ‘cuidar de si’ pode contribuir, mas não explica a maioria dos internamentos médicos.

Estudos epidemiológicos mostram que fatores sociais, doenças crónicas (como, por exemplo, diabetes ou doenças cardiovasculares), infeções e condições agudas (como AVC ou enfartes do miocárdio) são razões comuns de internamento. Os estilos de vida são apenas um dos muitos determinantes.”

“A quimioterapia não passa de uma farsa. Muitos médicos já dizem que ninguém cura o cancro por causa de quimioterapia.”

 

O que diz a ciência? 
“A quimioterapia não cura todos os tipos de cancro, mas em muitas situações é comprovadamente curativa (no caso de alguns linfomas, leucemias, cancro testicular e certos sarcomas) ou prolonga a sobrevivência e melhora os sintomas em doença mestástica.

Metanálises e ensaios randomizados mostram ganhos em sobrevivência para múltiplos esquemas. Em alguns tumores, a quimioterapia adjuvante reduz recidiva e aumenta a sobrevida. Em tumores metastáticos, a quimioterapia pode oferecer meses/anos adicionais e controlo de sintomas. Nem sempre é curativa, mas afirmar que ‘ninguém cura’ é falso.”

“Nenhuma vacina é verdadeiramente testada a nível de segurança pela indústria farmacêutica.”

 

O que diz a ciência? 
“Vacinas passam por fase pré-clínica (estudos em células ou animais), fases I-III de ensaios clínicos em humanos, avaliação por agências reguladoras nacionais e internacionais (como EMA-agência europeia do medicamento, FDA-agência alimentar e medicamentosa dos EUA, INFARMED ou OMS) e monitorização pós-comercialização (vigilância de eventos adversos). A segurança é examinada em dezenas de milhares de pessoas nas fases pré-licença e continua a ser monitorizada depois.”

“Há uns anos curavam-se pessoas ao sol em sanatórios.”

 

O que diz a ciência? 
“Sanatórios e helioterapia (‘banhos de sol’) foram usados historicamente (por exemplo, no tratamento da tuberculose) porque a radiação solar, descanso e alimentação melhoram o estado geral. Alguns pacientes melhoravam por descanso, nutrição, cuidados de enfermagem e seleção natural, não porque ‘o sol cura’ as doenças infeciosas sistémicas.”

“O que se come num hospital é, em larga escala, o motivo os que levou lá.”

 

O que diz a ciência? 
“A nutrição hospitalar pode afetar, se for de muito má qualidade, a recuperação, mas afirmar-se que a comida hospitalar é a causa dos internamentos é falso. Os pacientes internam-se por motivo de infeções, eventos cardiovasculares, traumas, cancros, entre outros, sendo que a alimentação melhora, mas não determina isoladamente a reabilitação.”

“Inventário de ingredientes [das vacinas inclui] “sangue de vaca, partes de galinha, células de tecido pulmonar de fetos abortados, células de rins de macacos…”

 

O que diz a ciência? 
“As vacinas contêm ingredientes específicos declarados nos ficheiros técnicos, mas não contêm ‘sangue’. Alguns processos usam ingredientes derivados de ovos (influenza), culturas celulares — algumas vacinas virais — e, historicamente, linhagens celulares humanas diplóides (como as denominadas cWI-38 e MRC-5), podem ser derivadas de abortos realizados há décadas e conservadas criteriosamente, mas as vacinas não contêm o tecido fetal propriamente dito. Isto pode significar que usam células humanas para produzir o denominado antigénio [substância inoculada no organismo a partir do qual se vão produzir as defesas, os denominados anticorpos], mas o produto final é altamente purificado, com níveis residuais regulados.”

“O cancro é um somatório… deixar de ingerir hidratos de carbono, alimentos processados e ultraprocessados.”

 

O que diz a ciência? 
“A dieta (alimentação com restrições) e obesidade são fatores de risco para vários cancros (colo-rectal, mama pós-menopausa, esófago) e reduzir o consumo de alimentos ultraprocessados pode, efetivamente, diminuir o risco de desenvolver neolapsias. No entanto, afirmar-se que, retirando os hidratos de carbono, se consegue prevenir todo o tipo de cancro é falso e abusivo. Os hidratos de carbono ditos complexos (de que são exemplo as frutas, leguminosas ou cereais integrais) são, inclusive, protetores.”

“Vacinas têm impacto no transtorno do espectro autista.”

 

O que diz a ciência? 
“Há forte evidência contrária. Múltiplas meta-análises e estudo de coorte e caso-controlo robustos não encontram uma relação causal entre vacinas (incluindo MMR) e autismo. O estudo original que alegou ligação (de Wakefield, em 1998) foi retratado por graves falhas éticas/metodológicas.”

“Uma criança que dorme bem, come bem, brinca e é feliz é saudável e não tem de ir à consulta de pediatria.”

 

O que diz a ciência? 
“No contexto de saúde pública, consultas de vigilância pediátrica detetam problemas que podem ser assintomáticos inicialmente (como problemas de crescimento, desenvolvimento, vacinação em atraso, anemia, doença metabólica, malformações ou problemas de visão/audição). O bem-estar observado nem sempre revela problemas subjacentes, pelo que a prevenção, através do seguimento médico, é uma prática importante que os pais não devem negligenciar.”

 
 
 
 
 
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“O aumento da esperança média de vida não tem nada a ver com vacinas.”

 

O que diz a ciência? 
“As melhorias registadas no aumento significativo da esperança de vida (em especial no último século) são multifatoriais (melhor saneamento, nutrição, cuidados obstétricos, antibióticos, políticas sociais), mas as vacinas tiveram impacto direto na redução de mortalidade infantil e particularmente no controlo de doenças infeciosas (varíola erradicada, redução significativa de poliomielite, difteria, sarampo, tétano neonatal). Assim, pode afirmar-se que as vacinas contribuíram substancialmente para o aumento da expetativa de vida, especialmente no século XX.”

“Nenhum fármaco cura. Os fármacos geram doenças.”

 

O que diz a ciência? 
“Muitos fármacos curam ou curaram doenças (antibióticos curam infeções bacterianas; antivirais curam hepatite C crónica em muitos pacientes; terapia antimicrobiana adequada erradicou muitas infeções). É verdade que fármacos têm efeitos adversos e, por isso, devem ser sempre administrados com vigilância de profissionais de saúde (médico, farmacêutico ou enfermeiro), sendo que existem regulamentações, ensaios e farmacovigilância para monitorizar continuamente os seus efeitos na sociedade, mas a afirmação absoluta é incorreta.”

“Todas as pandemias e epidemias foram agendas.”

 

O que diz a ciência? 
“A origem de pandemias documentadas (1918 influenza, VIH, SARS-CoV-2, mpox) é estudada por epidemiologistas. A maioria das provas aponta para origens naturais zoonóticas (através de animais), mutações, condições ecológicas e mobilidade humana. A ideia de ‘agendamento’ carece de provas e ignora dados genéticos, históricos e ecológicos.”

“Os antidepressivos são um veneno que não curam a depressão e que servem apenas para aumentar a receita das farmácias.”

 

O que diz a ciência? 
“Os antidepressivos não ‘curam’ todos os casos, mas têm eficácia demonstrada em depressão moderada a grave e reduzem risco de recaída em muitos pacientes. Há uma discussão, legítima, sobre efeitos adversos, balanço benefício/risco e influência da indústria na pesquisa, mas a evidência total indica benefício para muitos doentes, especialmente quando combinados com psicoterapia.”

“Nenhuma vacina obrigatória neste momento, nem no Plano Nacional de Saúde.”

 

O que diz a ciência? 
“Têm existido regras específicas sobre a obrigatoriedade ao longo do tempo. O Programa Nacional de Vacinação (DGS) define o calendário recomendado e existem mecanismos legais acerca da vacinação em determinadas situações, por exemplo, exigências escolares da política de saúde pública. A afirmação é demasiado absoluta e depende do enquadramento legal específico (normas, códigos de ética profissional, exigências para determinadas atividades).”

“Aquela porcaria da Mpox é um efeito secundário da vacina para a Covid. Os gajos criam um vírus em laboratório.”

 

O que diz a ciência? 
“Não existem provas de que a vacinação Covid-19 cause Mpox. Relatórios passados (bases de dados de farmacovigilância) contêm notificações espontâneas que não estabelecem causalidade; investigações científicas e ‘fact-checkers’ mostram que não há ligação causal comprovada entre vacinas Covid e Mpox. Quanto à origem do vírus, o mpox é um ortopoxvírus conhecido desde 1950/1970 e é zoonótico; alegações de ‘criação em laboratório’ carecem de provas e ignoram a história epidemiológica e genética do vírus.”

 
 
 
 
 
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