Nascido e criado na Cova da Moura, Ricardo Fernandes foi atleta profissional de kickboxing durante 20 anos. Campeão do mundo por duas vezes e da Europa por quatro, além de capitão da seleção nacional, tornou-se uma referência na modalidade.
Agora, à frente da Associação Ricardo Fernandes, está a organizar a primeira edição da Amadora Kickboxing Cup com patrocínio da Junta de Freguesia da Venteira. “Tenho muito interesse em pôr a Amadora no mapa do kickboxing. Por isso, criei este evento solidário”, explica.
Marcado para o próximo sábado, 25 de abril, no Pavilhão Desportivo Municipal José Caeiro, vai contar com dois momentos. De manhã, a partir das 10h30, há um treino solidário — conhecido como sparring — aberto a todos. Para participar, basta levar um bem alimentar que, depois, será entregue à Associação Cultural Moinho da Juventude, instituição que desenvolve várias atividades junto de crianças, jovens, adultos e idosos.
Durante a tarde, a partir das 15 horas, o pavilhão vai ser palco da primeira Amadora Kickboxing Cup. O preço do bilhete (12€) reverte na totalidade para a equipa de competição da Associação Ricardo Fernandes. Não é necessária inscrição prévia, basta enviar uma mensagem pelo Instagram ou ligar para o número de telemóvel 939 091 155.
“À tarde acontecem os combates. Os dois primeiros são de 60 quilos, depois realizam-se as meias-finais e, quem ganhar, disputa a final, que vai ser o último combate da noite. Pelo meio haverá outros combates, cinco antes da final”, explica. O ex-futebolista português Jorge Andrade vai ser o apresentador do evento e Ricardo promete surpresas ao longo do dia.
“O kickboxing salvou-me a vida”
Apesar de organizar treinos solidários desde 2019, ano em que a associação foi criada, esta vai ser a primeira edição de um campeonato de kickboxing desta dimensão. “Através dos eventos, angariamos o que outras associações precisam, como bens alimentares, e fazemos a entrega. A única regra é que as associações têm de ser da Amadora”, explica.
Orgulhoso da cidade onde cresceu, Ricardo pretende, através das aulas de kickboxing e destes eventos solidários, retribuir o apoio à comunidade. Em dezembro de 2025 recebeu uma homenagem da autarquia da Amadora, na Gala do Desporto, com o Prémio Prestígio “Amadora Desporto”.
Para ele, o kickboxing é muito mais do que um desporto. Começou a treinar aos 14 anos para se manter mais próximo do pai, na altura era treinador, e aos 16 foi campeão ibérico com os séniores.
“O kickboxing salvou-me a vida. Vivia na Cova da Moura. Nunca roubei, vendi droga ou fumei, nada. E só porque era atleta. Tive amigos que levaram tiros da polícia. Eu não estava lá porque tinha treino”, recorda.
Além da força, do condicionamento físico e do desenvolvimento da defesa pessoal, o kickboxing ajudou-o a construir valores e a aceder a uma vida que nunca imaginou.
“A primeira vez que dormi fora de casa, num hotel, foi por causa do kickboxing. A primeira vez que saí da minha cidade foi por causa do kickboxing. A primeira vez que mudei de país foi por causa do kickboxing. Ou seja, a minha vida teria sido completamente diferente sem o desporto”, revela.
É precisamente por ter consciência dessa transformação que quer proporcionar a mesma experiência aos miúdos da Amadora.
Transformação na educação dos mais novos
Nas aulas, não ensina apenas técnicas, mas reforça a importância do respeito, da honestidade e da integridade. Durante a entrevista à NiA, recordou várias situações em que colocou isso em prática.
“Uma mãe veio ter comigo, já não sabia o que fazer e queria bater no filho. Disse-lhe: ‘levei muita porrada quando era criança e não aprendi nada. Não vale a pena. Deixe o miúdo vir treinar hoje’”.
Ali, Ricardo consegue ligar-se aos jovens e transmitir os valores que aprendeu quando era mais novo. “Olho para eles — alguns são traquinas — mas são todos bons. Incutimos valores. Tenho mesmo orgulho na equipa de competição que temos”, reforça.
Além de continuar com as aulas, o atleta quer dar seguimento aos eventos solidários e transformar a Amadora Kickboxing Cup num evento anual, com prémios e reconhecimentos. Além disso, pretende incluir um open de Muay Thai e tornar a Amadora num local de referência para a modalidade.
“O kickboxing abriu-me os horizontes e espero fazer o mesmo com os miúdos de agora”, conclui.
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