Era só ela, uma mochila e a coragem de viver uma nova experiência. Em outubro de 2023, Ana Venâncio pousou em Marrocos acreditando que seria apenas mais uma viagem de férias. Bastaram sete dias para sair de lá transformada.
Hoje, além de ter deixado uma carreira de mais de dez anos na política na Amadora, começou um negócio para ajudar outras mulheres a viajar para Marrocos através de consultorias personalizadas de viagem.
“Durante oito anos fui presidente da Junta de Freguesia de Falagueira-Venda Nova e quatro anos vereadora na Câmara Municipal da Amadora. Mas depois daquela viagem, muita coisa mudou dentro de mim e comecei à procura de outro tipo de vida”, conta a amadorense de 50 anos.
Apesar de ter encontrado muita satisfação pessoal, primeiro como advogada e, depois, na carreira política, “algo foi mudando ao longo dos últimos tempos”. Ana já sentia que precisava de encontrar outro propósito, mas ainda não sabia qual.
A viagem para Marrocos foi a resposta que precisava. Decidiu ir sozinha e realizar o sonho de infância de conhecer o deserto do Saara. “Foi logo a seguir àquele terramoto grande em Marraquexe. Tinha viagem marcada para dali a 10 dias e resolvi não cancelar. Parecia que algo me chamava”, recorda.
Divorciada e com os filhos crescidos, Ana começou a fazer viagens sozinha há cerca de um ano. “Primeiro em países mais próximos, como Alemanha, e depois para Marrocos”, conta, enquanto confessa que nunca se sentiu tão livre. Nas ruas da Amadora, sempre foi uma figura pública. Já em Marrocos, sentia que poderia libertar-se do peso do cargo e ser somente a Ana Venâncio.
“Vamos com uma ideia preconcebida. Por ser um país muçulmano, vai-se construindo um arquétipo. Mas cheguei lá e vi que nada disso era verdade. Fui super bem recebida e pensei: ‘Tenho de mostrar isto às outras mulheres e desconstruir a imagem que temos do Norte de África’”, relata.
Além de Marraquexe, visitou aldeias no Atlas, as montanhas berberes, conduziu sozinha entre cidades do país, mergulhou na cultura amazigh dos povos originários e apaixonou-se pelas areias do deserto. “Existe uma energia completamente diferente. No deserto, o silêncio grita e faz-nos mudar coisas cá dentro”, afirma.
Regressou a Marrocos três meses depois, com a desculpa de que “precisava de ver alguns pontos turísticos que estavam fechados por causa do terramoto”. De lá para cá, já soma mais de 12 viagens ao país e, hoje, considera-se uma especialista em Marrocos.
Transformou a ideia em realidade
No entanto, ainda levou algum tempo até lançar o novo negócio. “A vida política segurava-me”, conta. Ana admite que já imaginava que viveria um último mandato e, depois, iria dedicar-se a outro projeto. No entanto, em outubro de 2025, o partido que representava não recebeu muitos votos e não entrou como vereadora.
“Entendi como uma mensagem do universo de que não seria daqui a quatro anos, que seria mesmo agora que teria de avançar com o projeto”, afirma.
Os negócios ligados a Marrocos começaram, na verdade, através do filho, que lançou uma loja online de tapeçaria marroquina. Entretanto, a amadorense tinha outros planos. Percebeu a curiosidade das pessoas em relação às suas viagens e pensou que poderia rentabilizar aquela experiência e, ainda, ajudar outras mulheres a desbravar o mundo sem medo.
“Como costumo dizer, não organizo excursões. Organizo viagens em grupo, principalmente para mulheres. São espaços que permitem partilhar experiências e vivências”, afirma.
Geralmente, os grupos variam entre cinco e dez pessoas, com um custo de 1200€ a 1800€ por viajante, com tudo incluído, à exceção dos almoços. Como consultora, Ana prepara todo o roteiro da viagem, que garante não ser parecido com o que se vê nas agências comuns. Apesar de visitar algumas joias arquitetónicas e locais turísticos, a ideia é promover uma experiência cultural e local.
“Tento fazer atividades diferentes e fora da caixa. Temos um guia local, jantares em locais diferentes e uma experiência. Já fizemos um workshop de culinária com uma chefe amazigh, da próxima vez vamos ter uma oficina com um artesão para decorar as nossas babuchas, ou seja, os chinelos típicos de Marrocos”, conta.
Além disso, procura experiências que façam as pessoas reconectarem-se com o seu interior, como o próprio nome da marca diz: Inner Soul Travel. Na próxima viagem, em novembro, haverá um programa de inteligência emocional através das cores. “Marraquexe é o cenário, mas, no fundo, é mais uma viagem interior”, afirma.
Encontrou um novo propósito ao ajudar mulheres
Além das viagens em grupo, Ana também oferece consultorias individualizadas, para casais e famílias, e está a desenvolver um novo projeto, de “detox digital”, voltado para o setor corporativo.
“A ideia é ser um serviço para cargos de direção conseguirem desligar-se do digital, largar o telemóvel e ter uma experiência diferente”, adianta.
Apesar de a maioria das viagens ter como destino Marrocos, a consultora já está a adicionar outros destinos à lista. Para 2027, haverá viagens em grupo para a Turquia, Islândia e Sardenha.
Até agora, Ana tem aproveitado a nova carreira. O maior feedback de que está no caminho certo é ver mulheres a regressar para fazer novas viagens com ela. “Há três que repetiram no início do ano e mais uma que vai agora em novembro”, afirma.
Para ela, o mais incrível é poder ajudar essas mulheres a terem coragem para viajar sozinhas. “Cada uma tem um background diferente, há mulheres de Angola e até do Brasil. Acho que é um empoderamento que todas sentem. O facto de entrar num avião com uma mochila sozinha é libertador”, afirma.
Além disso, Ana costuma acompanhar quase todas as viagens em grupo, o que acaba por oferecer mais segurança, além de uma rede de contactos robusta nas cidades. Apesar de estar no início, com apenas dois meses de atividade, a amadorense sente-se realizada e motivada a continuar.
“Ter esta possibilidade de pegar no computador, ir para qualquer sítio e continuar a trabalhar é o meu novo modo de vida. Para mim, já não é uma loucura, como a maioria acha”.
Carregue na galeria para conhecer a Ana Venâncio e a Inner Soul Travel.







