Margarida Fonseca recorda-se bem de um dos maiores casos de sucesso. Quando o pequeno Happy entrou em casa de uma paciente hospitalizada, há meses sem andar, tudo mudou. “Assim que ele entrou em casa, ela quis logo levantar-se, escová-lo, levá-lo a passear”, conta a criadora da cooperativa sem fins lucrativos Eu Cãosigo, instituição amadorense que desde 2018 presta serviços de terapia e atividades assistida por cães.
“Logo nesse fim de semana, saiu à rua pela primeira vez com os filhos. E na terceira visita que fizemos com o Happy, fomos passear o cão”, recorda sobre a mudança radical que começou, precisamente, no jovem Golden Retriever, que é um dos animais ao serviço da instituição.
A Eu Cãosigo começou por desenvolver projetos com crianças e, atualmente, alargou a intervenção a séniores, tanto através de visitas domiciliárias como em lares e centros de dia. A partir deste ano, com o apoio do financiamento do prémio da Caixa Geral de Depósitos e da consignação do IRS, passou a atuar em três instituições: a Santa Casa da Misericórdia da Amadora, a Fundação AFID e a Associação de Reformados da Falagueira.
A instituição é composta por equipas formadas, no mínimo, por um cão e um técnico. Atualmente, existem cinco equipas e sete cães, distribuídos pelas várias atividades. Margarida garante que nenhuma sessão é igual. “Depende muito do contexto, da faixa etária e das atividades propostas. Às vezes levamos um cesto com objetos do cão e os idosos têm de identificar o que são e para que servem. Também utilizamos bolas, peluches e acabam por brincar com os animais”, explica.
Apesar de todas as atividades terem uma componente lúdica, existe sempre um objetivo concreto. A fundadora explica que, através da interação com os animais, são trabalhadas várias dimensões: a memória, a interação social, o bem-estar emocional, a motricidade fina e a mobilidade geral. Com as crianças, as sessões assumem outra dinâmica. Uma das atividades visa facilitar a aprendizagem e a leitura.
“Temos um projeto num jardim de infância da Falagueira, onde estamos a ajudar crianças de cinco e seis anos, que vão entrar no primeiro ano, a melhorar as suas competências de pré-leitura”, conta. A ideia não é ensiná-las a ler antes do tempo, mas prepará-las para que, quando chegar o momento, se sintam mais confiantes.
“Nessas sessões, o cão pode ficar deitado ao nosso lado, o que é muito relaxante para a criança. Isso ajuda a retirar a pressão da atividade. Além disso, as crianças começam a brincar com os sons, com as palavras e a dividi-las em sílabas. Chegamos a fazer um ‘bolo’ para o cão com ração, de acordo com as sílabas que formam e depois o cão vai comê-lo.”
Foi precisamente uma destas atividades com crianças que inspirou Margarida a criar o projeto. Sempre foi apaixonada por cães e teve vários ao longo da vida. Durante a licenciatura em Gestão, contou com a companhia e o apoio emocional do seu boxer.
Mas foi apenas em 2017, quando já tinha duas filhas em idade escolar e pré-escolar, que viu uma notícia sobre o projeto “Cães e Livros” e se interessou pela área. A partir daí, começou a estudar e a aprofundar conhecimentos. “Fiz uma pós-graduação em intervenções assistidas por animais no ISPA e percebi que existia um vasto conjunto de aplicações deste tipo de atividade, que permite facilitar a vida das pessoas e promover o bem-estar de vários grupos mais vulneráveis”, relata.
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A escolha da Amadora como sede do projeto foi natural. Sempre viveu no concelho e reconhecia o potencial impacto de uma iniciativa deste género na comunidade. A organização conta com o apoio de diversos parceiros, incluindo a Amadora Inova, que facilita a instalação de entidades sem fins lucrativos.
Para concretizar os projetos, contam com financiamentos e prémios que têm vindo a receber ao longo dos anos. Paralelamente, disponibilizam também serviços pagos para ajudar a suportar os custos da organização.
“Desenvolvemos um programa de tratamento da fobia a cães, chamado Supercão. As pessoas passam por várias etapas e contactam com diferentes equipas e cães. A primeira sessão é apenas de avaliação, sem a presença do animal, e depois estruturamos as restantes”, explica. Cada sessão tem o valor de 65€ e pode ser solicitada através do site. Segundo a fundadora, a taxa de sucesso é bastante elevada. “É muito interessante observar o impacto, porque é libertador para alguém que, por exemplo, deixou de visitar amigos por causa dos cães. Há pessoas que acabam por mudar completamente a sua relação com os animais e algumas até passam a ter cães.”
Para Margarida, é extremamente gratificante acompanhar o impacto deste trabalho, tanto em crianças como em séniores, e também nos próprios cães. Segundo refere, estes momentos devem ser positivos para todos, sendo responsabilidade da equipa garantir o bem-estar dos animais.
Além de participar em algumas sessões, Margarida é responsável pela direção da cooperativa, conciliando esta função com outra atividade profissional.
“Atualmente temos duas psicólogas a tempo inteiro, uma na área da educação e outra na psicologia clínica. Já estive dedicada a tempo inteiro, mas durante a pandemia a atividade foi interrompida. O objetivo é, no futuro, conseguir dedicar-me exclusivamente ao projeto.”
Para quem quiser ajudar, Margarida destaca a necessidade de apoio, sobretudo na área da divulgação. “O voluntariado direto com cães é mais exigente, porque requer formação específica e neste momento ainda não temos capacidade para a disponibilizar. No entanto, é algo que gostaríamos de desenvolver no futuro”, conclui.
Carregue na galeria para conhecer mais sobre o projeto Eu Cãosigo.

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