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Café Brasil: a fé inabalável de Rosy, que superou a Covid, o cancro e perdeu 45 quilos

O café da Falagueira está a celebrar seis anos de vida. A dona vai fazer uma festa para agradecer tudo o que os clientes fizeram por ela.

“Olhe que eu falo muito. Começo aqui a falar e nunca mais ninguém me cala. E estou numa fase muito emotiva: choro por tudo e por nada”, avisa Rosilda Brito de Lima, a brasileira que há 19 anos trocou o Maringá, município do Paraná, pela Amadora, onde há seis tem o Café Brasil.

Para aqui chegar, porém, viveu uma odisseia, a que só resistiu “graças ao Senhor”. O rosário que tem pendurado numa prateleira atrás do balcão da pastelaria — que tem o nome da rua da Falagueira onde está localizado — é a prova irrefutável: “Sim, sou muito crente. Tudo o que consegui foi graças a ‘Ele’ e mesmo os momentos ruins foram provações que ele ‘Ele’ colocou no meu caminho”, conta à New in Amadora.

Rosy — é assim que é conhecida por todos, por vontade própria, porque “é mais chique”, diz com uma gargalhada — fala sem parar, conta a sua história com uma precisão cronológica assinalável. Quase se esquece que está a dar uma entrevista e ignora completamente o gravador pousado em cima do balcão.

Está sozinha no comando do Café Brasil, vai atendendo clientes, batendo com o cachimbo da máquina de café para tirar uma nova “bica”, tira uma imperial a um cliente, embrulha um queque para outra. Mas não pára de contar a sua história.

“Toda esta gente é minha amiga, todos eles são clientes de todos os dias, e têm acompanhado a minha história”. E que história. Este sábado, 17, o Café Brasil faz seis anos, por isso Rosy decidiu dar uma festa.

“Vamos ter aí uns bolinhos, uns salgadinhos, umas bebidas, tudo muito simples, mas de coração. Tenho de agradecer ao Deus, mas sobretudo aos meus clientes que me mantêm viva, que me deram a mão quando eu mais precisei e nunca a largaram”.

Rosy tinha avisado. As últimas palavras saem envoltas em lágrimas. Parece uma mulher frágil. Pura ilusão. A mulher de cabelo curto, formas generosas, T-shirt amarela com o logótipo da casa e avental castanho é mais forte do que uma rocha. “Eu própria me surpreendo comigo mesma. Às vezes, nos piores momentos, eu olhava para o céu e perguntava: ‘oh, Deus, eu sei que tu tens um propósito para mim. Mas tem de ser mesmo assim?”, diz, enquanto se volta a emocionar.

Pede desculpa, como se fosse preciso mostrar de que massa somos feitos. Rosy é uma lutadora, uma sobrevivente, uma vencedora. Tudo, desde que chegou a Portugal, foi conquistado a saca-rolhas.

“Sou mais portuguesa do que muitos portugueses”

Quando chegou a Portugal, há 19 anos, veio logo para a Amadora. Vinha com um contrato de trabalho para ser empregada no Dom Café, junto à Igreja Matriz, na Venteira.

“Adoro à Amadora. Se me mandarem ir para Massamá, eu choro e não vou. Não tenho nada contra Massamá, mas eu gosto é da Amadora. Eu costumo dizer que tenho de cometer um crime para a polícia me levar da Amadora”, brinca. Por isso, não tem dúvidas: “Sou mais portuguesa do que muitos portugueses. Este País deu-me tudo e sou infinitamente grata”.

“Bom dia, Cristina. Quer café ou descafeinado?”, pergunta a uma cliente habitual que acaba de entrar no Café Brasil. Perante a resposta, começa a tratar do pedido, mas não perde o fio à meada. “Eu e o meu esposo viemos para o Bom Café. Ele foi motorista lá durante dez anos, depois sofreu dois assaltos, ficou com medo e pediu para sair. Hoje ele é motorista da Padaria da Né”, conta.

A restauração foi aventura portuguesa, porque no Brasil, Rosy era “assistente de uma deputada estadual” e trabalhou diretamente no Parlamento. “Não tinha nada a ver, mas eu gostava muito dela e de política”. Depois do Bom Café, de onde pediu a demissão porque a patroa queria que ela fosse para outra loja do grupo e Rosy já se tinha afeiçoado aos clientes que atendia há anos, foi para o café Piteira, também na Falagueira, e, mais tarde, para a Sacolinha, na Venteira, e para a Padaria da Né, onde o marido já trabalhava.

O sinal de Deus e o sinal no banco

“Houve um dia em que ela chegou ao pé de nós e disse que ia vender a pastelaria. Eu fiquei doente e com uma depressão. E quando cheguei casa, tive um ataque de choro e disse ao meu marido: ‘vou abrir a minha própria pastelaria. Se toda a gente consegue, eu também vou conseguir’. Nem o meu marido acreditou em mim: ‘Com que dinheiro, mulher? Vou lhe oferecer um pé de cabra para você ‘abrir’ (assaltar) uma pastelaria. É o único jeito’”, recorda à New in Amadora, agora com uma gargalhada.

Rosy começou a procurar espaços, mas havia uma primeira condicionante. “Tinha de ser perto de casa, porque eu não conduzo. Eu tive um grande acidente de carro, fiquei com trauma e deixei de conduzir. E eu só pedia a Deus: ‘Senhor, vais dar-me um café, mas que seja perto de casa, para ir a pé”.

Poucos dias depois, falaram-lhe de um espaço que estava à venda na Avenida do Brasil. “Eu passava aqui todos os dias e nunca tinha visto que esta loja estava à venda”, garante. “Na véspera, eu tinha pedido a Deus para me dar um sinal quando eu encontrasse o meu café”. Foi com o marido ver o espaço: “Era um café escuro, com uma mesa de bilhar. E quando chegámos à porta, o meu marido olhou para mim e disse-me: ‘que engraçado. Quando chegámos a Portugal, este foi o primeiro café onde eu vim tomar uma cerveja’, porque nós no início ficámos em casa do nosso filho, que era aqui na rua”.

A voz de Rosy volta a tremer. Agarra-se ao rosário e beija a cruz. “Era Deus a enviar-me o sinal. Virei-me para o meu marido e disse: ‘Este é o meu café’. Entrámos e eu perguntei à dona quanto é que custava e ela respondeu-me que queria 45 mil euros”.

A empresária nem pestanejou. “Como é que eu faço para fechar o negócio?”, perguntou, perante o marido, de boca aberta. A proprietária deu-lhe uma semana para Rosy arranjar um sinal de 10 mil euros. “Eu não tinha dinheiro nenhum, mas eu tinha muita fé que este seria o meu café. Quando o meu marido me disse que tinha sido ali que tinha bebido a primeira cerveja quando chegámos, eu entendi que era o sinal de Deus. O Café Brasil era o meu café”, diz, emocionada.

O marido chamou-a louca, mal saíram do espaço. “Então, você promete à senhora 10 mil euros, quando sabe que não tem esse dinheiro?”, perguntou-lhe. Rosy estava “estranhamente calma”. “Fui direta ao Millenium, falei com o meu gerente e disse-lhe: ‘oi, querido, olha, preciso de dez mil euros na minha conta até à próxima semana’. Ele riu-se e disse que era impossível numa semana aprovar o crédito. E eu disse que se eles não me arranjassem o dinheiro, eu fechava a minha conta no banco”.

Naquele mesmo dia, “por volta das cinco e meia e pouco”, o gerente ligou-lhe a pedir documentação de IRS, para avançar com o processo, porque o banco tinha decidido conceder o empréstimo. “Olhei para o céu e disse ‘obrigado, Senhor’”.

No dia certo, Rosy pagou o sinal à proprietária do espaço que queria comprar. Mas as dificuldades ainda não tinham terminado. “Faltavam 35 mil euros e eu decidi negociar com a Tofa, a empresa que fornecia o café à casa. Expliquei que era o meu sonho, aceitei vender o quilo do café mais caro, comprometi-me a vender mais quantidade do que eles vendiam antes ali e fizemos um contrato. Eu não tive de desembolsar os 35 mil euros, foram eles que avançaram e eu vou pagando todos os meses”.

Rosy tem vindo a cumprir tudo escrupulosamente: “Antigamente, esta casa vendia dois quilos de café por mês. Hoje vende 12 por semana, portanto, a Tofa percebeu que eu, apesar de brasileira e sem dinheiro, era uma mulher de palavra”.

A pandemia no Café Brasil

Quando, enfim, se tinha composto, veio a pandemia. “Ninguém sabia o que aquilo era, quanto tempo duraria, mas eu tinha um empréstimo para pagar ao banco e um acordo escrito com o fornecedor de café para pagar todos os meses. O que é que eu ia fazer da minha vida? Não podia fechar, tinha de trabalhar”.

Alguns amigos chegaram a sugerir-lhe que ela agarrasse nas suas coisas e voltasse para o Brasil. “Rosy, você vai sufocar aqui. Vai enquanto é tempo’, diziam-me. Mas eu não fui. Nos primeiros meses da minha casa aberta, antes da Covid, trabalhámos muito bem. Investi aqui mas todos os meses eu tirava um pouquinho para colocar de parte. E foi graças a esse pouquinho que aguentei a pandemia. Nunca atrasei uma renda, nunca deixei de pagar um compromisso”, recorda à New in Amadora.

Mesmo durante a pandemia manteve a casa aberta. “Fechei o balcão com acrílico, deixando só a abertura para os pedidos, só vendia café, sempre de máscara, orientei tudo para a distância das pessoas, havia álcool-gel, correntes. Havia clientes que me pediam um copo de vinho ou qualquer outra coisa, e eu não podia correr o risco de fecharem a minha casa”.

Várias vezes recebeu a visita da polícia, por causa das denúncias. “Os agentes vinham cá, viam que estava tudo conforme e iam embora. Alguns até ficaram meus amigos”.

Rosy não esquece a atitude e a ajuda dos vizinhos. “Este bairro é de gente muito idosa, que tinha medo da Covid. Naquele tempo, eu só servia café em copos de papel, mas muitos dos meus clientes mais velhos só bebiam em chávena escaldada. Portanto, deixaram de beber. Mas vinham cá todos os dias: não bebiam, mas deixavam os 70 cêntimos. ‘É para ajudar, Rosy, que tu tens de pagar as tuas dívidas’. Por mais anos que eu viva, não vou esquecer disto”, diz a empresária, de novo de lágrimas nos olhos.

Quando tudo parecia ter acalmado e o Café Brasil voltou a trabalhar normalmente, Rosy descobriu um caroço na mama direita. “Recebi um telefonema do centro de saúde para fazer um rastreio, mas eu disse que não ia, porque estava tudo certo comigo”. Até à última, a decisão estava tomada. Tinha de trabalhar, não podia ir ao centro de saúde. “Tinha a casa cheia, mas de repente senti uma luz interior e decidi ir fazer o rastreio. Era Deus a chamar-me”.

Estávamos em outubro e Rosy estava inscrita há três anos para uma cirurgia bariátrica. “Eu andava feliz, porque finalmente a minha bariátrica ia concretizar-se no dia 16 de dezembro. Eu era ainda muito mais gorda do que sou agora, tinha muita dificuldade em baixar-me”, relata.

O diagnóstico dos exames à mama não deixou margem para dúvidas: cancro da mama. “Era um tumor maligno e o médico disse-me que eu tinha de ir para o IPO, até porque ele também atendia lá e queria acompanhar a minha situação. Eu achei que eu podia fazer a operação bariátrica em dezembro e em janeiro ia para o IPO, mas o médico disse-me: ‘não, Rosy, isto é um cancro em estado avançado, vai ter de fazer a retirada total da mama. Não vai haver bariátrica’”.

A crise de choro e o limpar dos cacos

Quando saiu do gabinete médico, Rosy teve um ataque de choro. “Fiquei muito triste com Deus, cheguei aqui, comecei a gritar, tive uma crise, joguei tudo o que estava em cima do balcão para o chão e só soluçava a dizer que me tinham roubado o sonho de fazer a operação de redução ao estômago. O meu marido acalmou-me, finalmente, percebeu o que se passava, e abraçou-me. De repente, senti uma paz muito grande interior. O meu marido ia varrer os cacos que se tinham partido e eu disse: ‘Deixa estar, que eu limpo. São os meus cacos”.

Naquele momento, Rosy tomou uma decisão, que comunicou aos seus mais próximos e aos clientes: “Não quero choro, não quero pena, não quero lágrimas, não quero olhares com piedade. Eu não estou bem, mas vou ficar. Deus não me permitiu fazer a redução de estômago, porque ele sabe que eu teria morrido na mesa de operações. Por isso, virei para o céu e voltei a agradecer-lhe”.

A história de Rosilda ainda não acabou. “Isto aconteceu em 2022, continuo a ser seguida no IPO, fiz quimio, fiz radio e mantenho a minha luta, com a ajuda de Deus e dos meus clientes, que têm sido incríveis e que percebem quando eu tenho de me ausentar para ir ao hospital. Vou num instante, tenho a consulta e volto. Não posso fechar, tenho de continuar a trabalhar”.

A festa deste sábado é “uma homenagem a essa força e ao apoio que todos me têm dado”, conta a chorar. “Porque eu nunca consegui agradecer a cada um deles. Esta é a forma de o fazer”, diz, acrescentando que quando está no café se esquece de todos os problemas.

“Estou numa fase muito depressiva, com tudo o que tenho vivido. Choro muito, quando chego a casa, meto-me na cama. Mas aqui sou alegre, rio, as pessoas dão-me vida”.

Rosy, que já perdeu 45 quilos nos últimos anos, não desistiu da bariátrica. “Vou fazer, claro. Não desisto dos meus sonhos. E depois da cirurgia, vou fazer a reconstrução da mama. Eu sou um trator, levo tudo à frente. Sempre com a ajuda de Deus”.

Carregue na galeria para conhecer melhor Rosy e o seu Cafe Brasil.

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