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Depois de um burnout, Isabel deixou o banco para criar fatos de ginástica

Isabel Correia foi diretora financeira durante 30 anos. Agora gere um atelier na Reboleira dedicado à costura e aos trabalhos manuais.

Quem vê Isabel Correia hoje, atrás da máquina de costura no seu próprio atelier criativo, dificilmente imagina que passou quase 30 anos a trabalhar como diretora financeira num banco. Foi um burnout, em 2019, que a levou a trocar balancetes e folhas de Excel por agulhas, tecidos e fatos de ginástica.

“Cheguei um dia ao banco e passei o dia inteiro a chorar no meu gabinete”, recorda. Um ano antes, o corpo já lhe tinha dado sinais, mas foi preciso chegar ao limite para procurar ajuda. Licenciada em Auditoria e com bacharelato em Contabilidade, Isabel liderava uma equipa de 30 pessoas e era responsável pelas áreas de contabilidade, tesouraria, logística e compras.

“Gostava do que fazia, apesar de ser um trabalho stressante e desafiante, mas o ambiente do banco era muito pesado. Não me identificava com a forma como as pessoas eram tratadas”, conta.

Esteve dois anos de baixa, acompanhada por psiquiatra e psicólogo. Além de lidar com os sintomas do burnout, precisou de encontrar novas formas de ocupar o tempo. “Nunca tinha estado de baixa, só quando tive as minhas filhas. Precisei de arranjar outras atividades”, explica.

Começou pelo tricô, uma prática que aprendera na adolescência e que considera terapêutica. Fez vários xailes e percebeu o impacto positivo de voltar a criar algo com as próprias mãos. Mais tarde, inscreveu-se num workshop para aprender a fazer fatos de banho.

“A minha intenção era fazer um fato de ginástica para a Matilde, a minha filha do meio, que pratica ginástica acrobática. Vi esta oportunidade, que usa técnicas semelhantes, e gostei muito”, recorda. Apesar de ter crescido com uma mãe costureira, Isabel nunca tinha usado uma máquina de costura. Ainda assim, o gosto parecia já existir.

No final de 2020 criou a Icraft. O projeto começou com kits de trabalhos manuais vendidos em tubos, pensados para incentivar as pessoas a parar um pouco e dedicar tempo à criatividade. “O kit não era de tricô, mas de meio ponto. É uma tela com pequenos furos onde se passa a agulha para cima e para baixo. Como aqueles livros de pintar, mas com linha”, explica.

Chegou a vender online e em mercados, mas rapidamente percebeu que o conceito não tinha procura suficiente para se tornar sustentável. Foi então que decidiu apostar mais seriamente nos fatos de ginástica. Fez uma formação em Madrid e começou a desenvolver modelos próprios com uma amiga. Mais tarde, acabou por avançar a solo.

“Ela tinha o trabalho dela e deixou de conseguir conciliar tudo. Fiquei um bocadinho sem saber qual seria o meu caminho profissional”, admite. Ao fim de dois anos de baixa, o banco ainda tentou convencê-la a regressar, propondo-lhe uma função menos exigente. Mas Isabel já não se via naquele ambiente.

 
 
 
 
 
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A ligação à ginástica também pesou na decisão. Além da filha, a própria Isabel praticou a modalidade em criança e voltou mais tarde, já em adulta. “Fui muito feliz na ginástica. É um mundo que me atrai muito”, confessa.

Determinada a profissionalizar o projeto, procurou ajuda especializada. Em novembro de 2023 conheceu Filipa Vale, designer de moda, que acabou por integrar a Icraft. As duas começaram a trabalhar na sala de casa de Isabel, mas rapidamente perceberam que precisavam de um espaço próprio.

Em fevereiro de 2024 abriram o atelier Icraft, na Reboleira, num espaço quie se divide entre a produção de fatos de ginástica, natação e ballet e uma área dedicada a workshops e oficinas criativas. “Procurei um espaço já com essa intenção de ter as duas vertentes. Acho que trago comigo esta missão de incentivar as pessoas a fazer qualquer coisa com as mãos”, afirma.

Segundo Isabel, os trabalhos manuais foram fundamentais para ultrapassar o burnout e recuperar um novo sentido para a vida. “É incrível para a autoestima vermos nascer algo feito pelas nossas mãos. Enquanto estamos concentrados a criar, a cabeça afasta-se daqueles pensamentos repetitivos”, diz.

Desde a abertura, o atelier já recebeu workshops de macramé, cerâmica, costura e oficinas infantis, e atualmente trabalha com Madalena Barata em formações de costura, enquanto Filipa assume os workshops de biquínis.

Para junho e julho está também prevista uma programação de oficinas criativas para crianças, com atividades diárias pensadas para despertar o gosto pelos trabalhos manuais.

O grande sonho de Isabel é ver a Icraft Labs cheia de oficinas pós-laborais e formadoras de diferentes áreas criativas. “Não tenho tido muito tempo para procurar formadoras e organizar o calendário. Esta parte do atelier ocupa-me muito tempo e, como somos poucas pessoas, sobra-me pouco tempo para me dedicar apenas a isso. Mas esse é o meu sonho”, admite.

Hoje, aos 56 anos, Isabel gere uma equipa de três pessoas e garante sentir-se muito mais feliz e realizada. Ela, Filipa, Madalena e João trabalham diariamente para entregar os fatos dentro dos prazos e com a melhor qualidade possível.

“Se me dissessem há cinco anos que isto ia acontecer, nunca conseguiria imaginar. Foi mesmo começar do zero. E gosto muito do que faço. É muito gratificante ir aos campeonatos e ver as classes de ginástica vestidas com peças feitas por nós”, conclui.

FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    Rua Dr. Teixeira Coelho, 15A
    2720-210  Amadora

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