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Família numerosa na Amadora: “Pensámos que as fraldas tinham acabado, mas vieram mais 3”

Conheceram-se na igreja e, apesar dos desafios, construíram uma família de sete filhos, que dão sentido a tudo.

Enquanto um está na casa de banho, outro faz a cama, a mais nova termina o pequeno-almoço e o mais velho passa a roupa para ir trabalhar. Em casa de Raquel e Nuno Ferreira, a logística tem de estar afinada para que tudo funcione. Afinal, são nove pessoas a viver sob o mesmo teto, com idades, vontades e compromissos muito diferentes.

Contrariando as estatísticas da queda da natalidade em Portugal e no mundo, o casal de professores tem sete filhos: Gabriel, de 25 anos, Miguel (21), Madalena (20), Vitória (12), Carminho (7), Rafael (6), e Clara (4). “São três gerações de filhos. Quando pensávamos, aliviados, que já tinham acabado as fraldas, as papas e as noites mal dormidas, vieram mais três. E foi na altura da Covid-19. Não foi fácil”, recordam.

Quem vê a casa tão cheia dificilmente imagina que Raquel nunca sonhou ser mãe. “Dizia que queria ser avó, saltar a parte de ser mãe”, brinca. No entanto, profundamente ligados à fé, o casal acredita que tudo fez parte de um plano maior. Conheceram-se na Paróquia da Brandoa, há quase 30 anos. Nuno é natural de Lisboa, enquanto Raquel nasceu no Barreiro e mudou-se para a Amadora aos 14 anos. “Fui adotada aos quatro anos e integrei uma nova família, oriunda de Dornelas do Zêzere. Depois vivi na Margem Sul, até chegar aqui”, conta.

O namoro, porém, demorou algum tempo a acontecer. Quando eram apenas amigos, Nuno partiu para uma missão na Madeira. “Era uma forma de discernir a minha vocação. Queria perceber se o caminho passava pelo sacerdócio ou pelo casamento”, explica. Durante quase um ano, comunicaram através de cartas. Quando regressou, Nuno tinha a certeza de que queria casar com Raquel.

Oficializaram a união em 2000 e, pouco tempo depois, nasceu o primeiro filho, após um parto exigente, que durou mais de 40 horas. “No início, dizíamos na brincadeira que gostávamos de ter 12 filhos. Mas quando nasceu o primeiro, começámos a rever os números”, recordam, entre risos.

Um milagre difícil de explicar

Apesar da brincadeira, nunca planearam quantos filhos queriam ter. Mantiveram-se sempre abertos ao que a vida lhes reservasse. As gravidezes foram acontecendo de forma natural e cada uma trouxe desafios e alegrias diferentes. Uma das histórias mais marcantes aconteceu durante o nascimento da quarta filha, Vitória.

“Quando a Raquel engravidou dela, estava a trabalhar nos Estados Unidos e não estávamos a atravessar uma boa fase. Por isso, não foi uma gravidez desejada”, recorda Nuno. Na altura, chegaram a considerar a interrupção da gravidez. No entanto, mudaram de ideias assim que entraram na clínica. “Vimos uma imagem de Nossa Senhora com o Menino ao colo e uma frase que dizia: ‘Mãe, não te esqueças: Deus ama-te e eu também.’ E voltámos para trás”, conta Raquel.

Dos sete filhos, Vitória foi a única a nascer por cesariana. Nuno não pôde assistir ao parto e apanhou um susto quando chegou ao Hospital Amadora-Sintra, na manhã seguinte. “A Vitória estava na incubadora e a Raquel estava muito mal, a precisar de várias transfusões de sangue”, recorda.

Os médicos foram categóricos quanto ao prognóstico. “Disseram-nos que Vitória poderia não sobreviver e que, caso sobrevivesse, poderia vir a ter dificuldades cognitivas significativas”, relembra. Hoje, 12 anos depois, o nome da menina parece reforçar a história que a família viveu dentro daquele hospital. “Anda no conservatório, toca fagote, está no sexto ano e tem uma vida perfeitamente normal”, afirma o pai.

Todos os filhos vivem com Nuno e Raquel em Alfornelos, com exceção de um, que, como o professor diz, “foi morar no céu”, referindo-se a uma gravidez que terminou em aborto espontâneo.

É uma casa Portuguesa, com certeza…

Como seria de esperar, a casa está quase sempre em movimento. “Não há sossego”, admitem. As tarefas domésticas são divididas entre todos. Os mais velhos, além de trabalharem para ajudar a pagar a faculdade, também ajudam no acompanhamento dos irmãos mais novos. Raquel concilia dois empregos e Nuno acaba de assumir funções como diretor de um agrupamento de escolas no Fundão, uma oportunidade que ajudará a reforçar o orçamento familiar.

Segundo o casal, um dos maiores custos é a alimentação. “Cada ida ao supermercado pesa mais na carteira”, admitem. Ainda assim, garantem que vivem com conforto. “Nunca faltou comida, água, luz e pagamos as contas a tempo e horas. Claro que nos privamos de muitas coisas. Não tenho o carro elétrico que gostava, não posso viajar tanto quanto gostaria, mas faz parte”, diz o professor, de 51 anos.

Apesar da confusão constante, dos sucessivos ‘mãe’ e ‘pai’ a ecoarem pela casa e das despesas crescentes, são os filhos que dão sentido à vida do casal. Mesmo quando sentem necessidade de passar algum tempo a dois e fazem uma escapadinha longe da casa, acabam por sentir falta da agitação. “O que me dá mais gozo é vê-los crescer, acompanhar as várias fases da vida e assistir ao amadurecimento de cada um”, confessa Nuno.

Apesar da diferença de idades entre os irmãos, os programas em família são uma tradição. Aos domingos, quando o tempo não convida a passeios, organizam refeições temáticas. “Há o domingo da pizza, das panquecas e a festa das pipocas”, conta Raquel. Também gostam de visitar quintas pedagógicas, ir à praia, passear em jardins e passar tempo junto da “piscina verde”. “É uma piscina fluvial, alimentada por água que nasce na Serra da Estrela, perto da terra onde comprámos uma casa, em Dornelas do Zêzere”, explica.

Como em qualquer família, há discussões sobre os programas, os horários ou a hora de regressar a casa. Ainda assim, o casal garante que tenta lidar com tudo com sentido de humor. A professora, de 44 anos, procura transformar o cansaço em momentos de descontração. “No outro dia, aparecemos os dois com toalhas enroladas na cabeça, pusemos rodelas de pepino nos olhos, ligámos música relaxante e deitámo-nos no sofá. Eles chamavam, chamavam, e nós nada”, conta, entre gargalhadas.

Para Nuno e Raquel, a vida já é suficientemente exigente. Passam os dias a trabalhar com miúdos e jovens e regressam a casa para cuidar de uma família numerosa. Por isso, procuram cultivar a serenidade, muito através da fé, e viver um dia de cada vez, com uma certeza: querem criar filhos felizes e capazes de permanecer unidos e presentes na vida uns dos outros.

E será que, depois de sete filhos, a família está completa? A pergunta arranca-lhes um sorriso e a resposta é simples: só a vida o dirá.

Carregue na galeria para conhecer a família completa.

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