fora de casa
ROCKWATTLET'S ROCK

fora de casa

Há 26 anos que esta associação da Amadora transforma vidas de mães e bebés vulneráveis

O Vigilante já ajudou centenas de famílias com apoio material, acompanhamento psicológico e residência temporária.

Roupas acabadas de comprar, berço novo e um amor incondicional pelo bebé que ainda nem nasceu. A verdade é que a maternidade nem sempre se parece com esta visão idílica. Há mulheres que não desejavam ser mães, outras que têm dificuldade em criar uma ligação com os filhos e aquelas que não dispõem de recursos básicos para lhes oferecer um cuidado digno.

Há mais de 25 anos, na Amadora, a associação O Vigilante desenvolve um trabalho de acolhimento e apoio a estas mães através de serviços de apoio à vida e de residência temporária. “É desafiante, mas temos várias histórias de sucesso. Muitas destas mulheres não receberam o amor e o carinho de uma mãe de que precisavam para agora o conseguirem transmitir. Tentamos quebrar estes ciclos de negligência e maus-tratos e capacitá-las para fazerem diferente”, explica Paula Pereira, diretora de recursos humanos, marketing e publicidade da associação.

Atualmente, existem dois serviços dirigidos às mães da Amadora: o Centro de Apoio à Vida e a residência temporária. O primeiro foi criado há 26 anos e começou por funcionar como um “banquinho do bebé”, onde eram recolhidos bens para serem entregues a mães em situação de necessidade. Hoje, o apoio é mais abrangente.

“Além do apoio material, com alimentos, carrinhos, berços e roupa de bebé, disponibilizamos acompanhamento psicológico, capacitação parental e formação de competências pessoais”, explica Rita Machado, assistente social responsável pelo Centro de Apoio à Vida.

Além disso, a equipa procura compreender as necessidades específicas de cada mãe, oferecendo apoio na procura de emprego, elaboração de currículos, preenchimento da declaração de IRS e até matrículas em creches, quando necessário.

Uma missão de empoderamento e transformação

O objetivo é disponibilizar todos os recursos e orientações necessários para que estas mães alcancem maior bem-estar físico, emocional e social. Desta forma, além de empoderar estas mulheres, a associação contribui positivamente para o presente e o futuro dos bebés.

O Centro de Apoio à Vida é composto por uma assistente social, uma psicóloga e uma técnica de animação sociocultural, que acompanham 30 famílias da Amadora por um período máximo de dois anos. “Temos acordo com a Segurança Social, através do qual é estabelecido um contrato e um plano individual de intervenção para cada família”, refere a assistente social.

Para se candidatarem, as mulheres devem estar grávidas ou ter bebés até aos seis meses, residir no concelho da Amadora e encontrar-se em situação de risco emocional ou social. “Elas chegam através do passa-palavra ou por encaminhamento direto do hospital, das freguesias ou de outras instituições. São mães muito sozinhas e desamparadas, e a nossa equipa acaba por ser a rede de apoio de que precisam”, conta Rita.

Na prática, as formações acontecem uma vez por mês, embora não sejam obrigatórias. Além disso, são distribuídos semanalmente cabazes com alimentos e bens essenciais para garantir uma alimentação saudável. Por vezes, também são promovidos encontros culturais, como idas ao teatro.

Para apoiar o projeto, é possível doar alimentos não perecíveis, como azeite, enlatados, feijão, arroz e massa. A associação aceita ainda artigos de bebé em bom estado e donativos monetários através de MB Way.

Um lar para recomeçar

A residência temporária para mães surgiu mais tarde, em 2004, e inicialmente acolhia adolescentes entre os 13 e os 17 anos. “Há cerca de sete anos reformulámos a casa e passámos a acolher mães adultas. Trata-se de um apartamento com cinco quartos, duas casas de banho, cozinha e sala, que recebe cinco mães e cinco bebés”, explica Paula.

Apesar de poderem candidatar-se por iniciativa própria, as mães chegam, na maioria dos casos, através das comissões de proteção de crianças e jovens, tribunais, juntas de freguesia e hospitais. Podem permanecer até dois anos na residência, onde recebem apoio multidisciplinar para conquistarem autonomia e aprenderem a cuidar dos bebés de forma responsável e digna.

“Um acolhimento residencial não é apenas um teto. No fundo, é um processo terapêutico. Trabalhamos todas as áreas da vida desta mãe e do bebé. Durante o tempo em que estão connosco, têm realmente um grande balão de oxigénio”, afirma a diretora.

Isto porque não precisam de se preocupar com renda, alimentação ou segurança. O essencial está assegurado para que possam reorganizar a vida. A equipa da associação oferece apoio na gestão doméstica e financeira. Além disso, as mães podem frequentar formações profissionais ou integrar-se diretamente no mercado de trabalho.

“É um processo que lhes permite ganhar tempo para se reconstruírem. Muitas nunca foram acolhidas, amadas ou educadas com princípios, valores e regras. Aqui encontram carinho, mas também limites”, explica Paula.

De acordo com a equipa, o bem-estar do bebé deve estar sempre em primeiro lugar. Por isso, as mães têm regras a cumprir, de forma a garantir o cuidado e a segurança da criança. Donativos de alimentos e artigos de enxoval também são bem-vindos.

Da associação para a vida real

“Quando as mães saem da residência, tentamos reunir tudo o que for possível para que possam instalar-se no quarto ou na casa que arrendaram. Precisamos de lençóis, toalhas, tachos, panelas, copos, talheres, tudo o que seja necessário para começarem uma nova vida”, acrescenta Rita.

Até hoje, mais de 160 mulheres e bebés passaram pela residência temporária da associação O Vigilante. Apesar dos desafios, a recompensa chega quando veem estas mães e crianças reintegradas na sociedade. “Há histórias incríveis de superação. Ficamos muito orgulhosas do percurso que fazem, porque estamos na retaguarda, mas o trabalho principal é delas. Não é fácil viver numa casa de acolhimento”, reforça Paula.

A diretora recorda o caso de uma mãe que passou pela residência, recebeu apoio e, três anos depois, acabou por integrar a equipa da associação. “Ela candidatou-se em igualdade de circunstâncias com todas as outras pessoas. Teve uma entrevista fantástica. Eu estava presente e tentei conter as lágrimas, porque era um enorme orgulho. Assisti à entrevista de admissão na casa e, mais tarde, à entrevista de trabalho. É um crescimento incrível”, conclui Paula, emocionada.

Carregue na galeria para conhecer a associação O Vigilante.

ARTIGOS RECOMENDADOS