fora de casa

fora de casa

Nesta casa de repouso, os idosos têm aulas de dança, reiki e dois labradores para mimar

Há mais de quatro décadas na Amadora, o espaço aposta no acolhimento ativo e na ligação comunitária através de várias atividades.

Existem expressões que despertam uma imagem menos positiva em quem as ouve. “Lar de idosos” é uma delas. No imaginário, surgem seniores num espaço que desconhecem, longe da família e onde o tempo parece passar ainda mais devagar. No entanto, o cenário na Cilinha da Amadora, a casa de repouso fundada há mais de 40 anos no concelho, é diferente.

Na última semana, um vídeo publicado nas redes sociais alcançou milhares de visualizações e mais de 800 gostos. As imagens deram a conhecer as novas mascotes da casa: Nini e Luna, duas labradoras resgatadas pela associação Labrador Rescue Portugal, a serem recebidas pelos utentes.

“Tínhamos huskies, que foram resgatados por uma colaboradora e ficaram aqui durante 12 anos. No entanto, faleceram e quando vimos a publicação das labradoras ficámos com pena. Eram duas e precisavam de ser adotadas juntas”, explica Magna Ribeiro, diretora da Casa de Repouso.

Como a casa está localizada numa quinta com mais de 5000 metros quadrados, era o espaço ideal para cães de grande porte. “Sem contar que os labradores são muito bons para pessoas de mais idade, já que são muito meigos”, completa.

Na última semana, fizeram uma surpresa aos 40 utentes e apresentaram as duas novas integrantes do espaço. À primeira vista, alguns ficaram mais receosos, enquanto outros se adiantaram logo para lhes fazer festas. Mas, passados uns dias, já estavam todos habituados às novas companhias.

 
 
 
 
 
Ver esta publicação no Instagram
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Uma publicação partilhada por Casa De Repouso Cilinha (@casa_de_repouso_cilinha)

Um amor incondicional 

“Eles ficam muito contentes quando a Nini se deita ali ao pé deles. Acho que é uma sensação de terem alguém de quem cuidar também. Porque, nesta fase da vida, muitos pensam que só dão trabalho e que já não podem fazer nada pelo outro. Aqui, acabam por ver que podem sempre fazer mais, nem que seja só uma festa”, reforça Magna.

Além disso, a presença dos cães gera mais ligação entre os próprios utentes. Em vez de se limitarem a ver televisão, por exemplo, acabam por observar os cães e conversar sobre os animais, que dão um “amor incondicional. Até os mais resmungões acabam por gostar deles. É amor que gera amor”, completa Andrea Sousa e Brito, psicóloga da Cilinha.

Os utentes já estavam habituados a ter cães na casa. Além dos huskies, o cão da diretora, outro labrador, acompanha-a diariamente. “Só não faz o registo de ponto”, brinca. “Havia um senhor, que infelizmente já faleceu, que tinha uma ligação forte com o cão da doutora Magna. Sentava-se sempre com o seu cajado e com o cão ao lado”, recorda Andrea.

A adoção dos cães é mais uma iniciativa para manter os seniores ativos e entretidos. Apesar de não terem fins terapêuticos formais, os animais acabam por impactar positivamente o dia a dia dos idosos. Isto porque a Casa de Repouso Cilinha procura acolher, cuidar e dar ainda mais vida a cada utente.

Uma rotina repleta de atividades

Além de conviverem com os cães, os seniores têm atividades para cuidar do corpo, da mente e das emoções. Há aulas de ginástica e psicomotricidade três vezes por semana, estimulação cognitiva com a psicóloga uma vez por semana, dança de 15 em 15 dias e animação sociocultural três vezes por semana.

Recentemente, incluíram a aula de movimento criativo, que une dança e artes plásticas, além do reiki. “Pensei que fossem encarar as atividades como algo demasiado moderno, mas foi o oposto. Duas a três vezes por mês, os voluntários vêm aplicar reiki e os utentes fazem fila para ver quem é o próximo a receber a terapia”, afirma.

As reuniões do grupo do terço, às terças-feiras à tarde, também são agitadas. Começaram numa pequena sala para cinco pessoas devotas e hoje decorrem no salão principal, com uma adesão quase completa. “E eles gostam não só da atividade em si, como da atenção que as pessoas lhes dão. Todos gostamos de ser amados, de não sentir que estão só à espera do fim da vida”, sublinha.

Além disso, o espaço também funciona como centro de dia. Ou seja, há vagas para seniores que não precisam de internamento, mas que querem conviver e aproveitar as atividades e os cuidados médicos disponíveis 24 horas por dia. “Funciona das oito da manhã até às sete da tarde. Os filhos deixam-nos aqui antes de ir trabalhar, como fazem na creche. Se quiserem, tomam o pequeno-almoço e jantam cá. Quando os filhos vêm do trabalho, passam para os vir buscar”.

Com quase 43 anos de existência, a casa de repouso guarda centenas de histórias. Testemunhou casais a formarem-se, idosos a recuperar de doenças e a voltar para a família. Para a equipa, o trabalho deixou de ser um negócio e passou a ser uma “missão de vida”. Magna e Andrea recordam com carinho os utentes que por ali passaram e nutrem o desejo de continuar a oferecer dignidade e acolhimento a cada um deles.

Carregue na galeria para ver as duas labradoras com os utentes da casa de repouso Cilinha da Amadora.

ARTIGOS RECOMENDADOS