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Nesta escola da Amadora, os miúdos fazem compras, cozinham e resolvem conflitos

Iara Alves gere a Escola-Atelier Marité, que segue a abordagem Reggio Emilia. Foi considerada uma das mais inovadoras do país.

Já lá vai o tempo em que o sistema de ensino se limitava a um modelo rígido, com mesas e cadeiras numeradas e aulas de conteúdos pouco criativos. Nas últimas décadas têm surgiram novos movimentos que colocam em causa o ensino tradicional.

É neste contexto que surge a Escola-Atelier Marité, na Amadora, reconhecida como um dos projetos mais inovadores de Portugal no segmento da educação pré-escolar pelo instituto Gera Gera.

“Criámos um lugar onde a criança pode aprender sobre o mundo na prática, ter autonomia, saber relacionar-se com os outros e gerir os seus próprios conflitos. Tudo de uma forma muito natural, em que o próprio quotidiano já é o currículo”, conta Iara Alves, de 37 anis, coordenadora e responsável pelo colégio.

A escola já existe há mais de 50 anos, mas Iara está à frente do projeto há 18. Além de ser um negócio familiar, ela própria estudou ali e, por isso, nutre um carinho especial pelo projeto.

Em 2024, mudou o nome para ‘Escola-Atelier’ e passou a integrar a abordagem italiana Reggio Emilia, desenvolvida no pós-Segunda Guerra Mundial, que coloca os mais novos como protagonistas do ensino.

“É uma pedagogia participativa, em que a criança tem uma voz ativa, é vista como um ser potente, inteligente, capaz de produzir o seu próprio conhecimento através da investigação e exploração na sua vivência”, explica.

 
 
 
 
 
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Aprender com a vida real

Na prática, os miúdos de três a cinco anos têm uma série de estímulos diferentes. Há sempre uma proposta do dia, mas são livres para escolher que atividade querem realizar.

Abertos das 8 horas às 18h30, oferecem um espaço de 300 metros quadrados, com atelier de música, barro, argila, madeira para construções, escalada, escorrega, sala de literatura, matemática, artes e expressão plástica.

Além disso, Iara investiu num atelier de luz para envolver os miúdos na parte cromática, com materiais translúcidos e uma mesa de luz, para onde podem subir.

“Tudo isto foi criado para que as crianças possam habitar o mesmo espaço e para que todos os seus interesses sejam acolhidos”, conta.

Separados em mini-grupos, os mais novos são convidados a realizar pequenas tarefas do quotidiano, como pôr a loiça na máquina, fazer as próprias camas e servir o próprio copo com um medidor de água.

 
 
 
 
 
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Uma das atividades mais esperadas é a saída para fazer compras. Todos os dias, dividem-se e decidem qual o grupo irá comprar os ingredientes para a refeição.

“Eles próprios é que se orientam e dizem: ‘ontem fui eu, então hoje vais tu’. E nisto falam com as pessoas da comunidade, pagam o pão, a senhora dá-lhes o talão, veem os números. Ou seja, toda a parte da comunicação também está presente”, diz Iara, coordenadora e responsável por toda a iniciativa.

Além da mentora, a equipa é constituída por mais três colaboradoras: uma educadora com formação em psicologia e duas auxiliares com experiência na abordagem Reggio Emilia. Além disso, há toda a equipa de limpeza e de cozinha que ajuda a manter o funcionamento do espaço.

Apesar de ter alvará para 35 crianças e duas salas, a coordenadora optou por manter apenas uma turma com 25 alunos, permitindo que aproveitem o espaço da melhor forma possível. As inscrições abrem em abril, sendo que a grande necessidade e procura tem permitido realizar inscrições em qualquer época do ano. O valor da mensalidade é de 449€, com alimentação incluída.

“Depois da festa de final de ano, os pais vieram ter comigo e disseram: ‘Iara, precisavas de chegar a mais crianças.’ E é muito injusto que seja só um grupo tão pequeno, mas o facto de ser assim é o que torna tudo isto ainda mais especial. Não quero retirar este detalhe, essa atenção e cuidado a cada criança”, comenta.

E o projeto não é só especial aos olhos de Iara e dos pais. Em março deste ano, a Escola-Atelier foi selecionada, juntamente com outras seis escolas, como um dos projetos mais inovadores de Portugal.

“O instituto Gera Gera, associação que atua nos campos da educação e formação de educação de infância, esteve a observar várias escolas em todo o país, de Matosinhos ao Algarve. E selecionaram a nossa como uma dos mais inovadoras. Fiquei muito feliz, percebi que estou no caminho certo”, diz.

A ideia do Gera Gera era selecionar os melhores projetos e levar profissionais para verem como é possível, na prática, fazer com que as crianças tenham uma posição ativa e participativa, diferente da forma antiga e desatualizada da educação.

“Foram cerca de 30 educadores que vieram visitar-nos e foi mesmo bonito porque recebi um abraço de todos e muita força. Foram palavras mesmo muito bonitas”, relembra Iara.

Mais do que só uma sala de aula

Formada em gestão e cada vez mais encantada pela abordagem Reggio Emilia, Iara deseja continuar a dar voz aos miúdos e, quando possível, expandir o projeto para novas unidades.

“Esta pedagogia requer muita escuta e interesse da nossa parte. Um olhar de admiração que reforça ainda mais o lado encantador da criança. E nestes 19 anos, não foi só a aprendizagem das crianças, foi essencialmente a minha”, diz.

Apesar dos altos e baixos, Iara tem a certeza de que valeu a pena, sobretudo quando ouve as conversas dos mais novos entre uma atividade e outra.

“Numa conversa sobre a Páscoa, falámos sobre recomeços, esperança e fé. A Milena disse: ‘é bom cuidar dos outros. A minha mãe cuidou de mim quando eu era pequena.’ E o Guilherme disse: ‘recomeçar é como construir outra vez as casas magnéticas que eu fiz esta manhã com o meu amigo Francisco.’ E a Beatriz disse: ‘Quando magoo uma pessoa sem querer, dou um abraço e um beijinho. Isto é cuidar do outro, como diz a mãe, que Jesus ensinou.’”

Através destes diálogos, Iara conta que estimulam o pensamento crítico e o contacto com questões sociais. A ideia é sempre aumentar o repertório cultural, com música e temas culturais, mas sempre focado no desenvolvimento e na construção, não na euforia e desorganização.

“As orientações curriculares do pré-escolar estão implícitas, porque há um convite de todas as disciplinas em cada momento. Não trabalhamos apenas a matemática ou a expressão dramática ou motora. Estamos ali com uma abordagem multidisciplinar de toda a aprendizagem”, conclui.

Carregue na galeria para conhecer a Escola-Atelier Marité.

FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    R. Luís Gomes 7
    2700-416

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