“Nunca tens tempo.” A frase atingiu Catarina Cardoso como uma facada no coração. Aos 43 anos, trabalhava a tempo inteiro na Staples e, nas folgas, fazia limpezas em casas e condomínios. Foi o filho, André, de 18 anos, quem deu o abanão que a mãe precisava.
A partir desse dia, Catarina decidiu mudar de vida. Despediu-se e começou a trabalhar por conta própria. Hoje, já assegura a limpeza de 21 prédios, uma casa e um escritório, tendo conquistado a vizinhança na Reboleira.
Catarina reuniu-se com os filhos e o marido, revelando que queria arriscar num negócio próprio. O objetivo era ter mais flexibilidade e tempo para aproveitar em família. Ainda assim, sabia que teria de abdicar de vários direitos laborais que lhe davam segurança, sobretudo financeira.
“Com recibos verdes não temos direito a nada, mas avancei com medo. Eles disseram-me: ‘Estamos cá para o que precisares’”, conta.
Mudou de vida e fez nome na Reboleira
Abriu atividade a 1 de abril de 2025 e começou com o pouco que tinha. Com o passar do tempo, tornou-se uma cara conhecida na Alexandre Salles, na Reboleira.
“Tenho seis prédios na mesma rua. Comecei no 23, depois fui para o 27, alguém ligou a pedir-me para ir para o 29, depois para o 11, o 31 e o 1. Portanto, aquela rua já é quase minha”, brinca.
Catarina sente-se realizada a fazer a limpeza dos prédios. Na Staples, trabalhava no apoio ao cliente e, apesar de gostar do ambiente e das pessoas, sentia que faltava qualquer coisa. Nos prédios da Reboleira encontrou algo que nunca tinha sentido, nem sequer na própria vizinhança.
“A atenção das pessoas naquela rua é incrível. Abordam-me, abrem a porta só para me verem e conversarem um pouco. E paro tudo só para ouvir as histórias”, conta.
É este carinho que lhe dá energia para enfrentar os dias intensos de trabalho. Para Catarina, as pessoas mais velhas são as mais cativantes. “Fui criada pela minha avó, a pessoa mais importante da minha vida”, diz. Num dos prédios da Reboleira, criou uma ligação especial com uma senhora de 83 anos, que vive no rés do chão.
“Pediu-me para limpar os vidros da casa dela porque, devido à idade, já não consegue fazê-lo sozinha. Eu não tinha tempo, mas disse que fazia. Há coisas que não são pelo dinheiro, mas por gosto. Um dia, deu-me um abraço e esse gesto deu-me mais um bocadinho de vida”, lembra.
Além disso, Catarina gosta de limpar escadas e de sentir que o seu trabalho é reconhecido. O maior desafio, admite, é não conseguir chegar a mais pessoas por trabalhar sozinha e não representar uma empresa.
O sonho de ter o próprio negócio
“Os recibos verdes são quase invisíveis. As pessoas não sabem o que é uma prestadora de serviços, que existe uma Catarina, uma Maria ou uma Joaquina. Mas nestes prédios sabem o meu nome, sabem o dia em que vou lá e esperam pela minha chegada”, conta.
Catarina limpa entre seis e sete prédios por dia, além do escritório ao fim de semana. Ainda assim, hoje consegue ir levar e ir buscar o filho mais novo, de oito anos, à escola. E essa liberdade faz toda a diferença. “Antigamente, o meu cansaço era psicológico. Neste momento, estou em paz. O cansaço agora é físico”, explica.
Para o futuro, o sonho passa por contratar mais uma pessoa e criar a própria empresa de limpezas, mas sem perder a proximidade e o cuidado com cada cliente, aquilo que considera ser o seu grande diferencial.
Enquanto não concretiza esse objetivo, quer expandir o trabalho a mais prédios e, quem sabe, conquistar ainda mais um bocadinho da Reboleira e da Amadora.
“Às vezes acho que já vou um bocadinho tarde. Se a minha avó cá estivesse, dizia-me: ‘Nunca é tarde.’ E é a isso que me tento agarrar para continuar”, conclui.








