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Patrícia abriu uma sala de jogos de tabuleiro para afastar os jovens dos ecrãs

O BoardGame Center Amadora tem dezenas de opções: basta chegar e jogar — sem pagar. E até há café e uma máquina de tostas.

Patrícia Forja, de 50 anos, lembra-se bem dos tempos em que era estudante e tinha 13, 14 e 15 anos. “Naquele tempo não havia cá PlayStations. Era uma época em que jogávamos muitos jogos de tabuleiro. Estavam na moda, como o Monopólio, mas havia mais. Lembro-me, por exemplo, do Catan, um jogo também com umas casinhas e umas estradas, o Paga e Cala, entre outros.”

Professora de Educação Visual e Tecnológica no segundo ciclo, na Escola Francisco Manuel de Melo, na Amadora, Patrícia tem muita experiência a lidar com miúdos. Ainda por cima, o marido também é explicador de Matemática e Físico-Química “dos mais crescidos”.

Percebemos que, cada vez mais, os jovens estão sempre agarrados aos telemóveis. Fazem tudo ali: leem em PDF, mandam mensagens, veem vídeos no TikTok, séries, — o mundo deles são os ecrãs. E quando jogam, fazem-no sempre online, o que é bastante pernicioso. Perdeu-se muito o contacto direto”, lamenta à New in Amadora.

Com esta preocupação em mente, Patrícia começou a pensar que utilidade que poderia dar à loja que tem na rua da Escola Secundária da Amadora e onde, durante anos, funcionou um centro de explicações.

“Tinha este atelier fechado, onde esteve o Binómio durante 20 anos. Eu e o meu marido temos outro centro de explicações, o Pontual. Chegámos a ter vários, mas os professores foram sendo colocados, e com a Covid-19, em 2020, acabámos por ir fechando os espaços. O meu marido ficou só com a loja ao lado, onde continua a dar explicações a títulos individual”, explica.

Durante dois anos, Patrícia viveu longe da Amadora. “Estive ausente no Alentejo, depois da morte do meu pai”, conta, que acrescentando que precisava “descansar” e focar-se em si.

Tudo a custo zero

No arranque do ano letivo, Patrícia, apoiada pelo marido, começou a forjar a ideia de abrir o espaço aos jovens e criar o BoardGame Center Amadora. “A coisa começou devagarinho, aos poucos, e só agora é que estamos a querer dar mais força a isto”, explica.

O espaço com dois pisos, o térreo e uma cave, está equipado com mesas, cadeiras e “tem uma ludoteca, com cerca de 150 jogos de tabuleiro”.

Todo o tempo do mundo.

“A custo zero, os jovens vêm, jogam, divertem-se. Estão aqui mesmo ao lado da escola e assim não estão sempre agarrados aos telemóveis, e aos ecrãs, que considero uma coisa muito negativa”, salienta Patrícia, que paga renda do espaço, mas não cobra nada aos seus utilizadores.

Tem ainda uma máquina de café e comprou uma para fazer tostas. “Estou sempre a dizer-lhes: ‘têm aqui ao lado uma mercearia, vão lá, compram pão, queijo e fiambre e podem usar a máquina para fazer tostas’. Às vezes, até lhes levo salgadinhos”, diz, entre risos.

Com uma saúde frágil, esta foi a forma Patrícia encontrou para estar ocupada depois das aulas e de se manter próxima dos jovens. “Tenho leucemia, faço quimio oral há 20 anos, sou cuidadora da minha mãe, que mora connosco, também não posso ausentar-me para muito longe. Como já não consigo dar explicações, e não tenho filhos, também procuro estar ocupada com estes projetos de comunidade”, conta.

Objetivo é criar um grande evento de jogos na Amadora

Uma das grandes ajudas de Patrícia é Carlos, um jovem que “gosta muito de jogos de tabuleiro e tem amigos que andam sempre nessas feiras e eventos”. “Quando lhe contei a minha ideia, incentivou-me logo a avançar e tem dado um apoio incrível aqui”, elogia.

O espaço, que, entretanto, se tornou a sede do Grupo Boardgamers da Amadora, já estabeleceu algumas parcerias. “Temos contado com alguns apoios de editoras, que nos fazem preços especiais na aquisição de jogos. Por outro lado, também temos encontrado jogos nas feiras que compramos para o centro.”

A professora, porém, deixa claro que ali não entram consolas. “Isso já eles têm em casa. Aqui são só jogos de tabuleiro. Não vendo, nem alugo. Eles chegam, estão aqui livremente o tempo que quiserem, escolhem um jogo e estão em silêncio a jogar”, conta Patrícia, orgulhosa do que tem feito.

O objetivo é criar uma associação oficial e organizar um grande evento nacional de jogos de tabuleiro na Amadora, à semelhança do que acontece noutras cidades do País. “Por via deste convívio que tenho com esta realidade, acabo por conhecer muitos desses encontros, e penso que seria muito interessante colocar a Amadora no mapa desses eventos, que atraem sempre muita gente”, explica.

Até lá, a ideia é crescer e dar a conhecer o projeto. “Os jovens precisam de ter coisas diferentes para fazer, precisam de entretenimento que puxe pelo seu raciocínio lógico, que desenvolva o seu sentido estratégico, as suas capacidades e inteligência. Penso que este é um dos caminhos nesse sentido, e se conseguir contribuir para isso, fico muito feliz”, conclui.

Carregue na galeria e veja mais imagens do BoardGame Center Amadora.

FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    Av. Alexandre Salles, 14
    2720-012 Amadora

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