Na vida de Gonçalo Infante, 38 anos, não há ninguém mais importante do que os seus dois filhos, com quatro e dois anos. Por eles, trespassou e depois vendeu a mercearia Áurea da Mina, que tinha na freguesia da Mina de Água e que continua encerrada desde 2023.
“A decisão foi fácil de tomar. O negócio dava lucro, tínhamos muitos clientes, mas eu quase não via os meus filhos. Naquela altura, o meu filho mais novo tinha seis meses. Quando chegava a casa, já estavam os dois na cama”, conta à New in Amadora.
Além da Áurea da Mina, Gonçalo e mãe têm também a Mercearia Milita, na Avenida de Aljubarrota, na Venteira (Amadora). “Era muito difícil conciliar, fazer as compras de mercearia, fruta, legumes e estar nos dois balcões ao mesmo tempo. Tive de optar. Prefiro ganhar menos, mas estar com os miúdos, ter mais tempo para a minha família”.
Milita, 63 anos, a mãe de Gonçalo, inaugurou a loja em 2007. “É um espaço familiar, meu e da minha mãe. A minha irmã tem outra profissão, mas agora está desempregada e ajuda um pouco nas redes sociais”, já o pai, reformado, “dá uma mãozinha quando é preciso”.
A mercearia que tem tudo
A loja é mais pequena que a da Mina, “mas tem tudo o que é necessário”, assegura o dono. “Temos produtos de mercearia, bebidas com e sem álcool, pão, frutas e legumes de muita qualidade, e que são a nossa especialidade, enchidos e queijos”. E ainda uma particularidade: arroz-doce uma vez por semana, uma tradição da loja da Mina que se perdeu com o encerramento do espaço, mas que os clientes “exigiram” que levassem para a Venteira.

Quando o compraram o espaço, em 2007, já ali estava uma mercearia com venda de fruta, de “uns senhores velhinhos”. Antes disso, mãe e filho tinham vidas completamente diferentes: “Ela trabalhava numa ourivesaria, — nada a ver — e eu, que sou licenciado em Marketing, estava a trabalhar na área, na Leroy Merlin”, conta à NiA.
“Esta é uma loja de bairro, que não tem tanta visibilidade, mas que é bastante conhecida porque está aqui há muito tempo. As pessoas já nos conhecem e sabem que nós temos tudo o que é essencial. E também há muitos vizinhos que nos ligam a fazer encomendas e ficam descansados. Além disso, os clientes da loja da Mina, que não se importam de andar um pouco mais, vêm ter connosco porque já nos conhecem”, explica o empresário.
Sobe e desce constante
A Mercearia Milita tem um serviço que a distingue da maioria da concorrência e que é uma grande vantagem competitiva numa freguesia com muita população sénior e muitos prédios de três andares sem elevador: “Fazemos entregas gratuitas, a partir dos 20€ de compras”.
“Acontece muitas vezes serem pessoas das redondezas que nós conhecemos há muitos anos e, nesse caso, entregamos sem necessidade de as compras serem no valor de 20€. Lá está, um casal de idosos que vive no terceiro andar sem elevador, compra uma palete de leite, uns garrafões de água, e mais umas coisas, aí nem sequer cobramos. Mas são casos especiais”, assegura.

Regra geral, o serviço é gratuito em compras superiores a 20€, porque também de compensar: “o tempo que perdemos, a gasolina que gastamos, encontrar lugar para o carro, tudo isso conta”.
O serviço já existe há muito tempo e, normalmente, é assegurado por Gonçalo. “Contudo, só agora é que está a ter mais visibilidade. Como estamos a apostar mais nas redes sociais, temos cada vez mais gente a solicitar a entrega ao domicílio. Não somos o Continente, que esse, sim, cobra a entrega, mas já fazemos cerca de 10 entregas por dia”, revela.
O comerciante não esconde que quando passa pela loja da Mina e a vê fechada, fica triste. “Mas também tenho a sensação de que fizemos um bom trabalho”, diz, acrescentando que não lhe passa pela cabeça reabrir o espaço. “Só vivemos uma vez. Prefiro ter menos dinheiro na conta, mas ter mais tempo para os miúdos. Não me arrependo de ter tomado a decisão que tomei”, conclui à New in Amadora.
Carregue na galeria para ver mais imagens de Milita, Gonçalo e da mercearia de família.







