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Três anos e quase 20 mil euros depois, Mariana e Hélder não desistem de engravidar

Aos 29 anos, estão mais unidos do que nunca: o sofrimento aproximou-os e não desistem de ter filhos. Já gastaram quase 20 mil euros.

A Amadora comoveu-se quando, a 20 de maio, a New in Amadora contou a história de Mariana e Hélder, um casal africano que está, agora há 3 anos, a lutar para engravidar. Tudo já aconteceu: avanços e recuos, e entre 19 e 20 mil euros gastos em tratamentos que, até ao momento, redundaram num fracasso.

Desde que publicámos a história pela primeira vez, já recebemos dezenas de mensagens de leitores interessados no desenrolar do processo: “Como está a Mariana?”, “Aquele casal que estava a tentar engravidar já conseguiu?”, “O processo está a correr bem?”, são apenas alguns exemplos.

De lá para cá, entre esperanças vãs e depressões naturais, o casal, que está junto há 4 anos, não cruzou os braços. O que mudou afinal? “Aceitei-me como uma mulher infértil, que tem feito de tudo para conseguir cumprir o sonho de ser mãe.” E continua sem deitar a toalha ao chão.

Após uns meses de pausa e nova bateria de exames, a luta continua. “Agora temos a noção que vai ser um pouco mais demorado do que gostaríamos. Os nossos médicos estão mesmo a fazer tudo o que podem e, neste caso, fazer tudo requer mesmo tudo”, conta Mariana à NiA.

Aceitei que as coisas não estão no seu controlo, são como são e bola para a frente. Fizemos a estimulação ovária. No total, tivemos nove óvulos maduros de boa qualidade. Depois desse processo é que é feita a FIV [fecundação in vitro]. Até à última semana, as coisas estavam a correr bem. Foi feita a congelação dos óvulos, e até ao último dia tivemos sempre seis embriões desenvolvidos de ótima qualidade. No último dia, muitos desses embriões não aguentaram”, relata.

Engravidar e voltar a morrer à beira da praia

O processo é normal e Mariana e Hélder estavam mais do que preparados para isso. “Mas uma coisa é sabermos que isso pode acontecer e que é normal, outra coisa é acontecer, voltar a acontecer e sentirmos que morremos outra vez à beira da praia”, explica a jovem angolana.

“Aí, confesso, voltei a ir um bocado abaixo. Como até ao último dia tínhamos seis embriões de boa qualidade e a evoluir, a sensação foi muito má. Acreditei até à última que era desta. Mas pronto, não aconteceu”, conta.

Guerreira como é, Mariana Monteiro, apesar de triste, não desarmou. Nem ela, nem o companheiro, Hélder Varela, que “tem sido incrível”. “Esta luta a dois tem-nos unido muito. Ele está sempre comigo, estamos sempre juntos, vai comigo à clínica e não me larga a mão. É um pai a sério e isso dá-me muita força para continuar a batalha”.

E continuam. Até porque “os poucos embriões que resistiram têm muito boa qualidade, segundo nos dizem os médicos”. “Temos sido muito bem tratados na clínica FertiCentro, em Coimbra, e os médicos estão muito esperançados na qualidade dos embriões. Para dissipar todas as dúvidas e dado o meu histórico clínico, a minha médica, Dra. Gisela Carvalho, que é excelente, decidiu fazer uma histeroscopia, que é um exame com uma câmara que é inserida vaginalmente até ao útero. É um exame bastante doloroso e a câmara anda lá a passear para detetar algum problema. E é isso que agora está a atrasar o ritmo do processo. A histeroscopia depende do meu ciclo menstrual e, portanto, o mais certo é que tenhamos de aguardar até janeiro”, relata à New in Amadora.

“O Hélder é um chorão”

Mariana não se cansa de elogiar o companheiro. “O Hélder tem sido incrível. Ele é uma pessoa muito sensível e chora por tudo e mais alguma coisa”, brinca, para desanuviar o ambiente. Mariana admite que também tem os seus momentos em que se vai abaixo e nessas alturas o companheiro “está sempre lá”, a puxá-la para cima.

No entanto, Mariana valoriza muito o papel de Hélder em todo este processo. “Nós sabemos que em muitos casos, as mulheres passam sozinhas por estes processos, que são sempre muito dolorosos e desgastantes. Outras vezes, sabemos que o prolongar destas situações e a dificuldade em engravidar, acaba por contribuir para o deslassar da relação entre o homem e a mulher”.

Neste caso, “nada isso aconteceu”. “Ele é um docinho”, diz, ternamente. “Estamos mesmo a viver isto os dois. Não é um desejo meu, é um desejo dos dois”, embora o antigo jogador de futebol sejam “mais pé na terra”, diz a companheira. “Ele está sempre a dizer-me que nós temos de continuar com fé de que tudo vai correr bem. Mas temos de estar preparados para que não corra bem. E aí há outras soluções”.

A hipótese de adoção, caso seja impossível ter um filho biológico, está agora mais em cima da mesa. ““Nunca vou desistir de ser mãe. Cresci numa casa de acolhimento com 22 crianças. Fui lá colocada pela minha mãe aos 3 meses e saí aos 12 anos. Portanto, como calcula, a adoção é um assunto pacífico para nós. Há muitas crianças institucionalizadas à espera de alguém como nós, que quer ser mãe e pai e dar amor a quem não tem”, revela.

Até a relação de Mariana com a família de Hélder “melhorou muito”. “Havia gente da família que não sabia de nada disto, mas com a repercussão mediática que o caso teve depois da vossa reportagem e da posterior ida à TVI, era impossível manter isto em segredo. Depois a forma de pensar dos cabo-verdianos é diferente da dos angolanos, mas agora tem havido uma harmonia excelente. A mãe do Hélder tem sido incansável a ajudar, está sempre a levar-me frutas e verduras, que é uma coisa que essencial para a minha alimentação”. E conclui: “agora está tudo perfeito, só falta mesmo o bebé”.

Reunião na Santa Casa: do acolhimento à adoção

Mariana e Hélder, que moram na Damaia, estão a preparar uma reunião, dia 26, na Santa Casa da Misericórdia da Amadora, para começar a refletir sobre a possibilidade de adoção ou de serem família de acolhimento. “Os primeiros contactos foram muito proveitosos e muito importantes, porque também nos ajudaram a criar uma nova perspetiva. Ser uma família de acolhimento, se tudo correr bem, facilita muito e encurta os prazos para uma posterior adoção”, diz à NiA.

E não há problema algum. “Se essa for a única oportunidade que a vida nos dará de sermos pais, claro que estamos preparados. Seria um disparate dizer que não. Temos de aceitar aquilo que a vida nos reserva”.

Quatro meses depois de ter exposto a sua intimidade à New in Amadora, e de ter repetido tudo na TVI, Mariana volta a fazê-lo neste follow-up. Não o faz por “qualquer necessidade de protagonismo”, mas por razões muito válidas.

“Isto é um assunto muito íntimo, claro, mas eu sinto que temos de ser gratos ao apoio que recebemos. Nós, entretanto, fechámos o Goufundme que criámos, mas a onda de solidariedade mantém-se e é incrível e avassaladora. Tem sido um apoio que eu não sei se as pessoas têm noção. Há gente que eu não conheço pessoalmente e de quem me tornei amiga. Há pessoas que nos ligam ou mandam mensagens todas as semanas e que já dizem “como está o nosso bebé””, sublinha.

Mariana sabe que a sua história tem ajudado muitas outras mulheres e casais que têm sofrido, quantas vezes em silêncio, e sem dinheiro, com esta dor. “Tenho de ser grata a estas pessoas. E tenho uma dívida de gratidão convosco. A New in Amadora foi essencial neste processo. A TVI descobriu a história porque leu a vossa reportagem. E temos tido da vossa parte uma atenção, um carinho e uma preocupação que sentimos verdadeira., Essa confiança convosco leva-me de novo a falar disto. Porque assim podemos chegar a mais gente e agradecer todo o apoio que temos recebido, que é comovente”.

Mariana e Hélder querem também ajudar outros casais.

Com todos os avanços e recuos, Mariana e Hélder sabem que o processo está longe de chegar ao fim. E vão continuar a lutar, mesmo que o processo seja doloroso, desgastante e caro. “Neste momento já gastámos entre 19 e 20 mil euros em todos os tratamentos, viagens, intervenções e medicamentos. A ajuda que os portugueses nos deram na operação de angariação de fundos tem sido essencial”, confessa.

É também por eles, por todos esses anónimos que são já amigos, que Mariana e Hélder vão continuar a lutar. “Depois de tudo o que têm feito por nós, sinto que isto é uma obrigação nossa. Quanto mais não seja, para honrar e agradecer o apoio que temos tido”, conclui.

Carregue na galeria e veja as fotos mais recentes do casal que está a emocionar os leitores do NiA.

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