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Daniel trabalha há 35 anos na Amadora e já cortou o cabelo aos jogadores da Seleção

O “barbeiro dos famosos”, como é conhecido na Colina do Sol, aprendeu tudo o que sabe com o pai. E luta pela dignificação da profissão.

O contacto direto com Daniel Ribeiro, 55 anos, destaca-se logo pela diferença. Marca hora para a entrevista, como se de um serviço se tratasse, ainda usa bata quando está a trabalhar, muda de lâmina a cada utilizador, varre o chão a cada 15 minutos, trata os clientes pelo nome próprio.

“Sou um profissional à antiga”, concede, com uma gargalhada, este homem, que é barbeiro há 35 anos, o ofício do pai. “Helena já não exerce, porque vai fazer 86 anos. Mas tinha uma barbearia na Brandoa, onde cresci e me tornei homem”, recorda à New in Amadora, acrescentando que tudo o que sabe aprendeu com o progenitor.

Hoje é o dono da Barbearia do Bairro, na Colina do Sol, que pertence à freguesia da Encosta do Sol, Amadora.

Trabalhou com o pai 11 anos. “Eram outros tempos, não havia a mesma preocupação com as doenças. Hoje, felizmente, tudo mudou e as condições de higiene e segurança são muito diferentes. As navalhas com lâminas descartáveis vieram dar mais segurança ao cliente”, conta.

Daniel sempre foi muito independente e queria começar cedo a ganhar o seu dinheiro. Ainda trabalhou numa empresa de materiais de construção em Benfica, até porque era “muito preguiçoso para estudar”. “Rapidamente percebi que não era a minha praia e as pessoas começaram a perguntar-me: ‘porque é que não aprendes com o teu pai a arte da barbearia? É uma profissão nobre, onde podes valorizar-te pessoal e financeiramente.”

A mensagem ficou a matraquear na cabeça de Daniel, que foi mesmo aprender com o pai. Tinha 18 anos. Ao fim de 11 anos abriu a Barbearia do Bairro, na Colina do Sol. “Primeiro num espaço aqui ao lado e depois mudámos para este salão”, conta. Ao todo, já lá vão 16 anos.

Inicialmente, tinha a companhia da mulher, mas depois os filhos foram crescendo. “E a Ana mudou de vida: é funcionária pública, e eu fiquei por aqui”. O filho mais velho tem 29 anos e é treinador-adjunto dos sub 23 do Benfica, a filha do meio tem 22 e está a tirar Psicologia, enquanto o mais novo, com 16, ainda está “à procura do seu caminho”.

“O cabeleireiro dos ricos”

Na freguesia é conhecido como o “barbeiro dos famosos”. Daniel Ribeiro ri-se e não recusa a alcunha. “Até há quem diga mais: o cabeleireiro dos ricos. Os meus preços são um pouco mais elevados do que noutras barbearias, mas não é por qualquer tipo de presunção, mas por posicionamento.”

O empresário quer manter o seu público-alvo: “médio alto e alto, porque a Colina do Sol está a dois minutos do Colombo, e isso é viável”. “Se o meu salão fosse na Brandoa, como era o do meu pai, não era possível”, acrescenta.

Os jogadores de futebol deram fama a Daniel. “O primeiro que recebi foi o Tiago Caeiro, jogador do Belenenses, que vinha aqui de forma tão discreta, que eu nem percebia que era ele. Acabei por saber, pelo Rui Patrício, num dia em que ele estava aqui a cortar o cabelo e entra o Tiago. Eles fizeram uma grande festa e o Rui é que me disse quem ele era”, recorda.

A fama de “cabeleireiro das estrelas” ganhou-a definitivamente em 2014, durante o estágio, ainda em Portugal, da Seleção Nacional para o Mundial da África do Sul. ”A equipa estava concentrada no Hotel Lagoas Park, e eu fui chamado para ir ao estágio, para ir tratar do cabelo e da barba deles”, conta.

35 anos de profissão
“Tenho orgulho em ser um filho da terra”

Daniel refugia-se no sigilo profissional para não revelar grandes pormenores, mas adianta que “os jogadores foram todos muito corretos. A maior parte deles já jogava no estrangeiro, onde nem sequer tinham um barbeiro fixo, e o facto de terem ali um no hotel ajudou a uniformizar a imagem da seleção”, explica.

“Há jogadores mais e menos exigentes, uns sabiam exatamente o que querem, já têm o seu estilo marcado, outros sentavam-se na cadeira e deixavam-se ir”, recorda, sem contar qualquer segredo. “Mas todos sabemos que há uns mais vaidosos do que outros com o seu cabelo e a sua barba”, brinca.

A passagem pela Seleção abriu muitas portas, reconhece, “Quer queiramos quer não, há clientes que sentem que esse trabalho que eu tinha com a com os jogadores era uma espécie de garantia de qualidade, reconhecimento de competência”.

Os treinadores Rui Vitória e José Peseiro, amigos entre si, também foram seus clientes. Houve um ano em que a Supertaça foi jogada entre o Benfica, treinado por Rui Vitória, e o Sporting de Braga, de José Peseiro.

“Tenho um amigo e cliente, que é jornalista no jornal “A Bola” e disse-me: “preciso de ti, para fazer uma reportagem no teu salão com o Peseiro e o Vitória”. Era o timing certo. A coisa foi combinada com os treinadores e correu bem. “A reportagem foi muito gira. Até lhe posso dizer a data do jogo”, avança, enquanto sai da sala, abre uma gaveta no escritório e vem com um cachecol vermelho embrulhado a dizer Sporting Clube de Braga: “7 de agosto de 2016. O jogo foi no Estádio Municipal de Aveiro, fui vê-lo com a família, e o Benfica ganhou”.

Dignificar a profissão

Daniel Ribeiro está sozinho no salão e clientes não lhe faltam. “Há quem ainda goste de um bom serviço e que saiba valorizar a diferença. Prezo muito os meus clientes e valorizo as pessoas que valorizam o meu trabalho”, diz à NiA.

Atualmente, a barbearia está aberta de segunda a sexta, das 9h30 às 13 horas, e das 15 às 19 horas, e ao sábado de manhã. No entanto, o empresário está a preparar mudanças: não fechar para almoço, abrir ao sábado todo o dia e alargar o leque de serviços.

“Queremos desenvolver a nossa oferta de outra forma. Vamos modificar um bocadinho o conceito, mas o target vai continuar a ser o mesmo. O objetivo é ampliar a gama de serviços que prestamos, como tratar das mãos, dos pés, limpezas de pele, entre outros. Os homens cuidam cada vez mais de si. E a ideia é complementar os serviços com o nosso ADN”, adianta Daniel, acrescentando que “a interação com o cliente e a proximidade são fatores-chave para o sucesso da Barbearia do Bairro”.

A proliferação de barbeiros e salões por todo o lado, não só pela Amadora, — não  assusta Daniel, mas preocupa-o. “Hoje em dia, há bons barbeiros, mas também há maus, e as pessoas ficam sempre de pé atrás quando entram numa barbearia. Mas penso que percebem depressa que sou um bom dos bons”, salienta.

“Para o meu posicionamento, essa concorrência não chega a ser concorrência. Isto é certo. Há bons profissionais em todas as áreas e na Amadora também há bons barbeiros e muito bons barbeiros. No entanto, independentemente disso, acho que há uma degradação da nossa profissão”, opina.

E dá exemplos: “Há uma falta de valorização muito grande — praticar preços de 5€ por corte não faz sentido. Para já, porque está desde logo a dizer ao cliente que aqueles que cobram 15 ou 20€ por um corte estão a cometer uma exorbitância. E na realidade não é verdade”.

O profissional explica que só trabalha “com tesouras que custam 400 euros”, e coloca “uma toalha em cada cliente, que, no final do serviço, vai diretamente para a máquina de lavar, não vai para o estendal para secar”.

“Eu utilizo lâminas de topo da Wilkinson ou da Gilette, que custam um balúrdio. O champô que aplico ao cliente custa 35 euros mais IVA. E tenho o espaço sempre com as condições de higiene adequadas para receber as pessoas”, afirma.

Portanto, “bem feitas as contas, as coisas não são assim tão lineares”. “Passo faturas e pago IVA, que não é pouco. É uma obrigação, claro. Por isso é que me questiono: até onde é que vai a qualidade de um profissional que pratica preços de 5€? Que lâmina usas? Que práticas de higiene e segurança tem? Que champô aplica aos clientes? Que impostos paga? Provavelmente não paga, porque não passa fatura.”

Mesmo assim, sublinha o barbeiro, os preços que pratica “são perfeitamente normais”: “um corte com lavagem, 16€, corte da barba à navalha, 11€. São valores normais. Nas cadeias dos centros comerciais cobram muito mais”.

Barbeiro filho da terra

Daniel Ribeiro tem orgulho em ter criado o seu negócio na sua terra. “Vivi sempre na Brandoa, terra a que pertence esta freguesia. Nasci no Hospital de Santa Maria e vivi sempre por aqui. Comprei a minha primeira casa na Brandoa, mas depois os filhos foram crescendo e a casa não esticou”, brinca.

Acabou por se mudar para as Colinas do Cruzeiro, a cinco minutos dali, já no concelho de Odivelas. “Comprei lá casa, há 20 anos, quando ainda se podia comprar”, recorda à New in Amadora, acrescentando que viu “tudo a nascer” na Colina do Sol. “Ali onde está o centro comercial era o sítio onde eu jogava à bola com os meus amigos”, aponta.

“Tenho orgulho de ser um filho da terra e de ter construído a minha carreira de barbeiro naquela que é a minha terra. Podia ter um salão no centro de Lisboa, podia praticar outro tipo de preços, mas o estar aqui também é uma forma de valorizar a Amadora, de mostrar que esta terra também tem coisas boas”.

E enfatiza: “A Amadora tem coisas muito boas, que precisam de ser referenciadas para acabar com o estigma. Não vale a pena estarmos sempre a falar das coisas más. Essas, há em todo o lado. Ou achamos que só na Amadora é que há bandidos, crimes e vandalismo? Em todo o lado, há. A Amadora é uma terra de oportunidades e que deve ser valorizada. Tem problemas? Tem. Mas todas as terras têm e também nos cabe nós, cidadãos, lutar pelas melhorias”, conclui.

Carregue na galeria para ver mais imagens da Barbearia do Bairro e do “barbeiro dos famosos”.

FICHA TÉCNICA

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    2650-188 Amadora

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