O contraste é gritante. Maria Cecília Duarte, 77 anos, é ativa, faladora, desfia as memórias e tem saudades do tempo em que ainda trabalhava na área da saúde. Ao seu lado, na mesa do café, está o marido, José Pinto da Costa, 79, que mal abre a boca. “Ele é mais reservado, gosta de estar no seu cantinho”, justifica, cheia de paciência, no início da conversa com a NiA.
Com o decorrer dos minutos, percebemos que não só é uma questão de feitio. A reforma fez mal a ambos, embora por razões diferentes. O casal esperava que o fim da vida ativa fosse o início de passeios e evasões, mas a realidade tem sido bem diferente do sonhado.
Naturais da Covilhã, ambos asseguram que não têm memórias um do outro em gaiatos. “Só me lembro dele já no tempo da tropa”, afirma Cecília. Estão casados há quase 53 anos, uma vida. “Temos dias bons, uns assim-assim e outros menos bons. É preciso muita dedicação, paciência e saber levar o outro.”

Afinal, quem tem o feitio mais difícil? Cecília e José entreolham-se, ele não responde. “Se calhar sou eu”, reconhece a mulher. “É mais chata”, reforça o marido.
Nas fraldas da serra, o romance começou a ser construído em família. “Os nossos avós ainda são primos. Na altura, era muito habitual e uma forma de aceitação do casal, uma vez que as famílias já se conheciam”, relata.
Quando se conheceram, ela tinha “16 ou 17”, ele já estava na tropa. “Não foi paixão à primeira vista, mas achei-lhe graça”. E acrescenta com ironia: “Entre os poucos rapazes que havia, ele era o mais engraçado”. O marido não acusa a ironia: “Ela era bonita”, atesta.
José é um homem de poucas falas. “Era muito falador, mas está cada vez mais calado”, observa Cecília, enquanto lhe acaricia a mão. Num saco colocado em cima da mesa tem um álbum de fotografias do casamento. “São as únicas que tenho”, informa.
Explicamos que vamos precisar de fotos atuais. Por ela, tudo bem. O pior é por ele. “Aonde vais, Zé?”, pergunta-lhe Cecília, assim que ele se levanta inopinadamente. “Vou para casa ler o jornal e fazer palavras-cruzadas”, responde. “Espera aí que o senhor tem de nos tirar umas fotos atuais.” O octogenário, antigo funcionário da Cometna, a Companhia Metalúrgica Nacional, sediada na Amadora, que encerrou em 2004, anui e trava o passo.
Apesar de casados há quase 53 anos, não houve um pedido de namoro oficial. “As coisas avançaram aos poucos, conversávamos, tornámo-nos amigos, descobrimos que tínhamos afinidades e gostos em comum.”
E exemplifica: “Eu gosto de passear, ele também. Não somos do mesmo clube: ele é do que ganha e eu sou do Benfica”, ironiza. “Gosto do Sporting da Covilhã”, acrescenta José. “Adoro futebol e vejo jogos na televisão, ele prefere ficar no seu canto, a fazer palavras-cruzadas”, complementa a mulher.
Quando o casal se mudou oficialmente para a Amadora, em 1972, Cecília veio trabalhar “na caixa da CUF”, enquanto o marido já trabalhava na Cometna. “Era bastante mais pequena do que é hoje, mas comparada com a Covilhã era uma cidade grande.”
A adaptação à Amadora não foi fácil. “Estava habituada a viver numa casa independente, e aqui é tudo prédios. Toda a gente conhece a vida de toda a gente, mas isso também tem uma vantagem: fizemos amigos aqui no bairro, na Falagueira – Venda Nova”, revela.
Maldita reforma
Durante a vida ativa, Cecília sempre esteve ligada à saúde. Primeiro trabalhou na CUF, depois no centro de saúde. “Sempre gostei de lidar com pessoas, de tratar dos outros, sempre me considerei uma cuidadora”, afirma, acrescentando que quando sonhavam com a reforma, faziam planos para dar grandes passeios pelo País. “Queríamos aproveitar, após anos de trabalho”, diz, apesar de lamentar “a pressa” do Estado em aposentar os funcionários públicos. “Queria continuar a ajudar, mas não me deixaram”, lastima.
O quotidiano mudou completamente. E a interação de José, lentamente, também. “Desde que nos aposentámos, a nossa rotina é sobretudo em casa. De manhã saio sempre, vou às compras. Ele também sai de manhã, bebemos um café aqui na Rosy. Depois, vou até ao fim da rua para dar uso às pernas. Antes, ele também ia, mas agora vai menos. Prefere ir para casa.
O marido está calado, de olhar perdido, dir-se-ia vazio. Ninguém diria que a mulher acabou de o mencionar. “Já quase não fala”, lamenta. “Sempre foi reservado, mas agora está pior”.
Cecília sabe muito bem o que se passa e o nome do que está a acontecer. Há claros princípios de demência, esquecimentos, pouca conversa e menos alegria de viver. “Ele não tem noção das alterações cognitivas, e nunca falamos sobre isso. Vai ao médico, mas tenho de ser eu a lembrá-lo. Às vezes, não se recorda do seu dia de aniversário, esquece várias coisas. É autónomo em casa, faz a sua própria higiene, mas no caso da barba, por exemplo, sou eu que tenho de lhe dizer para a desfazer. Às vezes, deixa-se andar mais desmazelado e não gosto”, revela à NiA.
José reformou-se seis anos antes da mulher, porque a metalúrgica fechou. “Mandaram toda a gente para casa com uma indemnização, e isso foi o princípio do fim”, constata.
“Nessa altura, ele ainda estava bem: arrumava o quarto, fazia o jantar, porque sabia que eu ainda trabalhava. Quando passei a estar em casa, as coisas pioraram, já não tem iniciativa para fazer quase nada. Hoje, até fiquei admirada, porque começou a fazer a nossa cama antes de eu chegar ao quarto.”
A somar a tudo isto, tem cada vez menos força física: “Está sempre à minha espera para lhe calçar as meias, porque sozinho já não consegue”.
Agonia lenta e muita paciência
Sendo uma pessoa que trabalhou anos a fio a lidar com a saúde dos outros, como convive com a lenta degradação do marido?”, perguntamos. Cecília olha para o companheiro de uma vida e diz: “Se calhar, como trabalhei tanto tempo nessa área, percebi rapidamente o que estava a acontecer. Assisti a muitos casos destes”, explica.
A antiga profissional de saúde não esconde, porém, que acompanhar este processo “é completamente diferente”. “É mais doloroso porque é o meu marido. Perceber as alterações e limitações que surgem rapidamente é muito triste. Tudo o que projetámos fazer a dois, na reforma, foi por água abaixo. Os passeios nunca aconteceram, saiu tudo furado. Ele não se sente bem no meio de muita gente”, explica.
As exceções são as idas ocasionais de José ao supermercado, acrescenta. “Gosta de ser ele a comprar o vinho e o whisky. Bebe sempre um copinho à refeição. Não é muito, mas bebe. Como não percebo nada disso, ele vem comigo, mas está sempre pronto para voltar para casa o mais depressa possível.”.
Cecília já pensou em convencer o marido a fazer ginástica. “Sei que podia ajudar a atrasar o processo degenerativo, mas ele não quer ir. Eu já fiz, e só me fazia bem. Deixei de ir porque dei uma queda e fiz uma rotura de ligamentos. Agora, os joelhos já me deixam.”
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